—É provavel, meu filho, que venha da cêa de quinta feira santa em que, entre treze pessoas, havia um traidor, que causou a morte{192} do Justo por excellencia. É possivel que um duplo sentimento de respeito pela Divindade e de horror por Judas fizesse evitar no começo do Christianismo os jantares festivos de treze pessoas; mas o que ha muito tempo substitue este sentimento puro e religioso é uma crença absurda, que faz depender de um numero a vida de um homem, como se Deus não esperasse para nos chamar a si a hora que elle mesmo marcou. Em muitas pessoas, é verdade, este prejuizo não é mais do que uma imitação, uma recordação de criança, uma fraqueza inexplicavel. É preciso evitar-lhes uma idéa desagradavel como se evita ás pessoas nervosas um susto, que se sabe não ter fundamento. Demais, se nós lhe não ligamos hoje importancia alguma, é que nenhum de nós receia o famoso numero treze, que faz effectivamente mais barulho do que mal.
Um signal de approvação respondeu ás palavras do senhor de Valneige que accrescentou com meiguice.
—Quanto a minha mulher, tão docil é em crenças religiosas, como a acho superior a superstições populares. Não é assim Adilia? Confessa que nem sequer notaste o numero treze.
—Enganas-te, meu amigo, é a primeira vez que dou por elle.
—E porque, dize?
A senhora de Valneige, tão tranquilla sempre,{193} perturbou-se; arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e, sem olhar para seu marido, como, que lhe escapou esta resposta:
—Porque elle teria sido o decimo quarto!
Um profundo suspiro acolheu estas palavras, e o infeliz pae cahiu n'um triste silencio. Sua esposa ficou afflictissima por ter deixado perceber n'esta circumstancia o continuo pensamento de seu coração; mas não podia remediar o que tinha dito, o effeito estava produzido; e, sem as crianças, que se animaram a dizer alguma coisa alheia ao assumpto, o jantar teria sido triste até ao fim. E era sobretudo o fim que mais interessava a rapaziada; suspirava-se pela sobremeza.
Eil-a! Os prados de fructa, de dôces, de bolos servem-se de roda, e de uma bandeja guarnecida de flôres pelas mãos de Camilla a senhora de Valneige tira o primeiro premio destinado a Frederico. E uma caixa contendo um relogio de prata com cadêa e chave, é o seu primeiro relogio! Todos nos lembramos da impressão produzida pelo nosso primeiro relogio, para todos é a mesma. Examina-se por todos os lados, toca-se, abre-se, fecha-se, ouve-se. Estes cinco movimentos são inevitaveis: Frederico fel-os uns atraz dos outros, como toda a gente. O que o encantava era levar o seu relogio para o collegio e mostral-o todas as tardes. Um relogio no collegio! que dita! Ah! que felicidade que haja relojoeiros!{194}
Quando Frederico acabou de vêr o relogio e de o agradecer á sua mamã, tratou-se do segundo premio, porque Eugenio estava já achando os preleminares um pouco demorados. Era o segundo premio um porte-monaie bem solido e muito bem recheado de dinheiro em prata. Eugenio animadissimo dispôz-se a contal-o, mas tres vezes se enganou, tão vivas são as emoções dos capitalistas. Viram os outros melhor na bolsa alheia, e concordaram em que Eugenio era possuidor de vinte francos.