—Oh! com certeza se o vir de perto, um loirinho, que tem ar d'um principe, e que se{219} chama Adalberto. Pobre anjo! pensar a gente que elle tem mãe! É horroroso! Se eu tivesse tido filhos e me succedesse tal desgraça endoidecia.
E n'isto, com grande espanto de Josephina, a tia Tourtebonne enterneceu-se, pensando na familiasinha que podia ter e que não tinha.
A conversação sobre Adalberto não podia interromper-se; ambas repetiam:
—Está talvez ali! Quem sabe?
De repente, no meio da multidão avistam os caros amigos Julião e sua mulher, que seus amos tinham mandado á festa, para que se divertissem um bocado.
Este encontro foi theatral; prometteram não se separarem; e o bondoso Baptista, feliz por vêr que as senhoras tinham um cavalheiro, e cansado da barafunda que encantava Josephina, aproveitou a occasião para se retirar. Julião tinha tratado de segurar meio de conducção para a volta; combinaram que partiriam todos quatro juntos, e começaram a gozar tranquillamente em quanto o senhor Baptista se safava com tenções de esquecer n'um bom somno o tal sujeito que fazia tanto mal, arrancando os dentes sem dôr.
Divertiram-se muito, muito. Josephina gastou tres tostões. Comprou bolos que offereceu amavelmente a todos, bebeu duas limonadas, ganhou na loteria, sahindo-lhe a primeira vez um copo para comer ovos cosidos, deu um vintem{220} a um cego, e a boa pequenita, guardou dois vintens para fazer de generosa quando chegasse a hora feliz do espectaculo.
Essa hora chegou. Fartaram-se de habilidades, de dansas, de pantomimas. Josephina pulava de contente, mas atravez da sua alegria jactava-se uma grande preoccupação.
Em cada pequeno pellotiqueiro queria reconhecer Adalberto. A tia Tourtebonne e Sophia não cessavam tambem de pensar no pequeno da adêga, mas a pequena camponeza, com o enthusiasmo da sua idade, não duvidava da sua presença, chegando a parecer-lhe impossivel que elle não estivesse ali. Tinham estas quatro pessoas todas a mesma idéa.
Sophia dava tudo para poder levar á sua ama a criança, cuja sorte ella não cessava de deplorar. A tia Tourtebonne imaginava a alegria que sentiria a pobre mãe do pequeno da adêga, quando lhe levassem o seu querido filhinho; Josephina desejava ardentemente um acontecimento, uma aventura, uma emoção; teria sido uma felicidade para todos e um divertimento para ella; o senhor Julião, amigo zeloso da justiça e pontual antes de tudo, só queria uma coisa—denunciar aos policias a infame companhia e fazel-a prender, afim dos ladrões pagarem na cadeia o crime commettido; era tambem esta a opinião de seu amo.