Movidos por estes diversos sentimentos gastaram horas a passear pela feira; um lindo dia{221} favorecia os passeantes, mas apezar d'isso havia entendedores com idéas negras que repetiam: «Vamos ter agua!» Josephina achava que se não devia dizer uma coisa a que ninguem prestava attenção. Entretanto ia-se acabando o dia e todos pensavam em voltar para suas casas, e, bem contra a vontade de Josephina, foi preciso tomar o caminho que conduzia á carruagem. Umas nuvens negras ameaçavam chuva, havendo já quem sentisse cahir alguns pingos d'agua.

A cincoenta passos da carruagem Julião exclamou:

—Olhem para a Andaluza! vale a pena de se vêr! Dez minutos mais ou dez minutos menos não faz nada ao caso.

Josephina approvou Julião.

—Como ella é bonita! accrescentou o marido de Sophia.

—E como ella dança bem, com as suas flôres de romã na cabeça, respondeu a tia Tourtebonne, que se não fartava de a admirar, dizendo a todo o instante: Oh! se me fizessem mexer assim cahiria por terra, com certeza!

Toda a gente estava espantada; a hespanhola era extraordinaria e todos lhe gritavam: «bis! bis!» A pobre rapariga saudava, dançava e tornava a saudar. No momento em que, estafada, ia para se retirar, uma criança vestida como um dançarino de corda rompeu{222} por entre a turba com uma bandeja na mão; parecia que o signal para partir estava dado, toda aquella gente se affastou. Cada um deu meia volta á direita ou á esquerda, para não despender um vintem e conservar a sua dignidade aos olhos dos outros.

O movimento instantaneo de toda a multidão tinha é verdade differentes causas: a dansa acabára, Gella tinha desapparecido, a noite aproximava-se e uma forte pancada d'agua desconsolava e punha todos em debandada.

Corriam, encontravam-se, empurravam-se; os felizes abriam os guardas chuvas, os outros cobriam a cabeça com o lenço.

Era uma scena de barulho, de confusão, de gritos, de mau humor, de que se não póde fazer idéa.