GLOZA.
Por que barbara razão
Hum justo amor se reprime,
E ha de julgar-se por crime
Pôr na boca o coração?
Claros olhos ferir vão
Hum coração innocente;
Nem ao triste se consente
Dar sinaes de seu cuidado!
Deoses! quanto he desgraçado
Quem adora occultamente!
No peito a chamma accendida
As entranhas lhe abrazou;
Mas da ingrata, que a ateou,
He crime ser percebida.
Se deita sangue a ferida
Á vista do matador,
Vejão de que nova dôr
Sente o triste a alma cortada,
Fallando co'a sua Amada
Sem declarar seu amor!
Arde em hum fogo escondido:
Pois se conta o seu cuidado,
Além de ser desgraçado,
Chamão-lhe em cima atrevido.
Até quasi tem perdido
De olhar o livre direito;
Vive sempre contrafeito;
E entre mil contrarios posto,
Mostra alegria no rosto,
Sente mil ancias no peito.
Busca alegres companhias,
Por curar o mal que sente:
Entra a ingrata de repente,
Despertão-se as cinzas frias.
Ternas Arias, Synfonias,
Tudo aviva o seu amor;
Mas dos fados o rigor
Tem sobre elle taes poderes,
Que no meio dos prazeres
Vive cercado de dôr.
MOTE.
Nos olhos o amor explico
Que trago no coração;
Que não se póde occultar
No peito a doce paixão.
GLOZA.
Mandas-me, ó Anarda, em vão
Os olhos meus reprimir;
Que elles sempre hão de seguir
O impulso do coração.
Sem querer sinaes daráõ
Do affecto, que não publíco:
Co'a boca, que mortifico,
Que importa que o não revele,
Se eu, por mais que me acautele,
Nos olhos o amor explico?
Amor os faz descuidados:
Em vão, Anarda, os abaxo;
Pois dahi a pouco os acho
Outra vez nos teus pregados.
Trazellos mais castigados
Não está na minha mão:
Esta continua omissão,
Este erro, como tu dizes,
He hum fructo das raizes,
Que trago no coração.
De que serve olhar a medo,
E fallar acautelado,
Se hum suspiro descuidado
Vem descobrir o segredo?
Este artificio, este enredo
Pouco poderá durar:
Meus olhos me hão de entregar;
Que hum amor na alma arraigado
He como hum fogo ateado,
Que se não póde occultar.
Tempo, e arte tenho posto
Para disfarçar-me em tudo:
Mas sae-me perdido o estudo,
Em vendo o teu lindo rosto.
Disfarça-se mal hum gosto,
Que nasce do coração:
Tambem tu dessa lição
Talvez que bem não sahiras,
Se assim como eu sentiras
No peito a doce paixão: