—«Oh! nada», respondeu, «é a historia d'um marido. São sempre divertidas.»

Poz-se a rir, mas mais alegremente, da enormidade da sua insolencia. Não pensou senão no effeito a produzir em Chalinhy, e, por acaso, o visinho a quem se dirigiu n'aquelles termos, era nem mais nem menos do que Paulo Moraines, o marido «mais marido» de toda aquella sociedade. Peor do que isso. Era publico e notorio que o luxo da sua esposa fôra pago primeiramente pelo velho Desforges e depois por um outro dos Mosé, o conde Abrahão. Mas Moraines não desconfiou nunca das galanterias venaes da sua Suzanna—da aventura com o elegante Casal, por exemplo, ou da ligação com o poeta René Vincy.

A herança inesperada da senhora Bois-Daufraines—prima afastada de Suzanna Moraines—veio trazer ao casal dois milhões de francos, justamente no momento em que os Desforges e Mosé iam começar a fazer falta, agora que a idade chegava com o seu fatal cortejo: pontos dourados na alvura dos dentes, tranças postiças e espartilhos reparadores! Paulo Moraines tinha a mania de contar a toda a gente a historia d'essa herança, em{49} todos os pormenores, e accrescentava invariavelmente: «Vejam o que é ter uma mulher inteligente. Quasi que nem chegámos a perceber que tinhamos alguns milhares de libras de renda a mais, tão boa dona de casa ella é!»

Nem uma leve sombra passou pelo rosto aberto do excellente homem, quando a baroneza de Node deixou escapar, tão gravemente, deante d'elle, o classico proverbio: «não se falla em corda...»

Ao contrario, insistiu até:

—«Se é escandalo, digam-me que é para o contar á Suzanna. Não poude vir por estar com uma enxaqueca; mas, em indo para casa, conto-lhe tudo.»

A um novo golpe de vista lançado a Chalinhy, Joanna comprehendeu que não necessitava empregar nova ironia—ella tinha ouvido a phrase de Moraines—e começou com este uma animada conversação, uma d'essas tagarelices dos grandes jantares parisienses, que são a justificação plena da anthipathia dos homens superiores por esse meio banal.

É manifesta a antithese entre as deficiencias do espirito e os explendores da decoração.

A sala de jantar do palacio de Sarliévre, com as suas altas paredes cobertas de magnificas tapeçarias de Arraz, com o esplendido mobiliario á Luiz XVI, com os elegantes centros de meza e jarras de Saxe, com o intenso brilho de flores, dos pratos e crystaes, realisava um sonho vivo da mais requintada opulencia. As seis mulheres assentadas á meza, entre oito homens, trajando com o maior rigor{50} eram todas formosas, e a mais velha, Emmelina de Sarliévre, tinha apenas trinta e sete annos.

Eram, além da elegante Joanna e da graciosa Valentina, a muito gentil senhora de Bonivet, a deliciosa Monniot e a sua amiga, a joven Croix Firmin.