Era uma casa quadrada, isolada entre duas construcções mais elevadas, ás quaes se ligava por um muro de regular altura. Os ramos amarellados de meia duzia de tilias bastante desenvolvidas, ultrapassando o cimo do muro, denunciavam o luxo de um pequeno jardim.

Estes estreitos e quasi microscopicos talhões de{70} verdura abundavam ainda, ha vinte e cinco annos, n'esta vertente sudeste do Monte de Santa Genoveva.

Eram os minusculos destroços, salvos por acaso, dos vastos parques pertencentes a recolhimentos que George Sand descreveu com tanta poesia na «Historia da minha vida». A communidade das Augustinhas Inglezas, onde ella foi educada, era muito proxima, como muito proximo era tambem o immenso quintal da Misericordia, de que elogia as uvas douradas e os cravos de differentes côres. Depois, estes pavilhões com jardins teem desapparecido uns apóz outros. Este da extremidade da rua Lacépède não devia ter sido mais notavel do que os da rua Rollin ou Boulangers. Hoje, a sua conservação é uma anomalia que necessariamente attrahe as attenções.

A baroneza de Node passou e tornou a passar, muitas vezes, pelo passeio fronteiro, para examinar a extranha habitação com uma attenção que cada vez augmentava mais a sua surpreza. A casa tinha duas janellas no rez-do-chão, uma de cada lado da porta, e tres em cada um dos andares superiores. As do rez-do-chão eram guarnecidas de vidros despolidos e protegidas por estóres; e as sacadas do primeiro e segundo andares não tinham outra particularidade senão aquella ligeira differença de côr dos vidros que attestam a grande antiguidade de certos caixilhos.

Eram guarnecidas por bambinellas brancas, com ramagens, cahidas, e com reposteiros de estôfo, apanhados por braçadeiras, e dos quaes se via sómente{71} o fôrro de setineta crême e a franja, vermelha e azul, que os orlava.

Os passeantes estranhos ao bairro, se os havia, que se detivessem a observar uma tal frontaria, imaginavam sem duvida, por detraz d'ella uma d'estas doutas habitações burguezas, d'um sabio ou dum professor, como ha muitas entre o Luxemburgo e o Jardim das Plantas, em consequencia da proximidade do Muzeu, dos dois grandes lyceus, da Sorbonne. Mas que um tal logar podesse servir de abrigo aos amores d'uma marqueza authentica, vinda ali d'um dos mais nobres palacios do arrabalde de São Germano, constituia uma hypothese tão perfeitamente inverosimil, que era preciso que Joanna de Node fizesse um exforço enorme para se convencer de que ella estava lá dentro, e que tinha visto perfeitamente Valentina de Chalinhy collocar a mão sobre o punho de ferro, que existia a um canto da porta, á moda antiga, para o fazer soar,—empurrar a porta ao meio da qual um friso de cobre marcava a abertura d'uma caixa para cartas, destinada a receber a correspondencia, sem que o carteiro entrasse—transpôr a soleira, elevada, por tres degraus, do pavimento da rua... N'aquelle momento lá estava ella, n'um d'aquelles compartimentos fechados. E com quem?

Qual seria o homem do seu meio, que chegou a esta casa alguns momentos antes d'ella? Assim devia ser, visto que lhe abriram a porta.

Ou então era ali o abrigo d'alguma aventura ainda mais romanesca? Teria Valentina, por uma serie de circumstancias que ninguem das suas relações{72} podia suppôr, procurado uma ligação fóra da sua casta? Juntar-se-hia ali com ella um rapaz novo que nunca tivesse ido a sua casa? Que se tratava d'uma intriga amorosa, não havia a menor duvida. O que poderia oppor-se a que viesse a esta rua, pobre, mas perfeitamente decente, se fosse ali levada por um motivo justificado? E depois, o aspecto senão rico pelo menos muito confortavel da casa, não excluia tambem qualquer idéa d'uma visita de caridade? Valentina estava junto d'um amante. Mas que amante?

A violencia da curiosidade de Joanna era de tal ordem, que, esquecendo completamente a prudencia, ficou immovel, no passeio, com a cabeça levantada, em risco de ser vista do interior, se alguem se lembrasse de olhar para a rua atravez das bambinellas. Teria talvez, na febre de tudo saber, batido á porta mysteriosa, offerecido dinheiro aos lojistas visinhos para os fazer fallar, se um novo acontecimento não viesse de repente responder á pergunta tantas vezes feita: a paragem d'uma carruagem em frente d'essa casa, cuja frontaria enygmatica e muda ella observava com o olhar.

Era um coupé d'aluguer, do qual sahiu um homem ainda novo e que parecia preocupado por ter chegado tarde, por isso que, depois de bater á porta, durante o tempo que demoravam a abrir-lh'a, consultou o relogio e fez um significativo movimento de cabeça. Aberta a porta, entrou precipitadamente, abandonando o batente que se fechou logo, mas não com tanta rapidez que Joanna de{73} Node não tivesse tempo de ver quadros, columnas e uma escada atapetada—mas não distinguindo quem veio abrir a porta. Com difficuldade conseguiu observar os traços physionomicos do homem: uma physionomia intelligente, magro, cabellos ainda pretos, apparentando ter uns 45 annos, com uns olhos tão negros que lhe pareceram d'um brilho singular. Os seus olhares cruzaram-se e, debaixo da impressão do d'elle, Joanna córou. Para não parecer que exercia a espionagem, deu alguns passos para a frente, como uma pessoa que não está bem certa no caminho. A que classe social pertenceria este homem que, sem duvida, vinha ter uma entrevista com Valentina de Chalinhy?