Tinha-lhe parecido muito bem posto, e, comtudo não lhe havia dado a sensação d'uma pessoa pertencente ao meio em que vivia.
Deu ainda alguns passos na direcção da rua Monge, com a idéia de que o desconhecido a tivesse notado e abrisse talvez a sacada para verificar se ainda ali se conservava. Voltou a cabeça e reconheceu que as janellas da pequena habitação continuavam fechadas e que a carruagem que conduziu o homem se não ia embora. Apoderou-se d'ella a tentação de não se retirar e esperar que Valentina ou o desconhecido reapparecessem, ou até mesmo os dois juntos.
Mas que mais tinha a esperar? Para que expôr-se a avisa-los. Tinha já a tão desejada prova. Restava-lhe apenas saber o uso que devia fazer d'ella. Subiu para uma carruagem e voltou para o Paris aristocratico—o Paris de sua prima e d'ella—e{74} a imagem do estranho sitio em que aquella occultava o romance da sua vida ter-lhe-hia parecido um sonho se a perfida voz interior á qual no primeiro sobresalto de consciencia respondeu: «não farei isso» não tivesse recomeçado a pronunciar palavras muito nitidas, muito precisas, misturadas ás realidades da sua vida presente e aos mais positivos interesses do futuro. Tinha meio de perder Valentina para com Norberto. Não o utilisaria?
[V
A carta anonyma]
É forçoso reconhecer, para honra ou desprestigio da natureza humana—depende isso do ponto de vista—que muitas das más acções raras vezes são commettidas expontaneamente, e como taes. As nossas ruins paixões avantajam-se em nos encobrir a sua perversidade nativa debaixo dos mais plausiveis pretextos e algumas vezes das mais justas apparencias. É muito difficil que as reconheçamos em nós mesmo. Toda a psycologia do crime se encerra na seguinte phrase cynica d'um assassino, contando a lucta com uma velha mulher sua victima: «Defendia-se a miseravel!...» Quando uma creatura odeia outra por motivos tão vis como a inveja, por exemplo, acontece, quasi sempre{75} ver o inimigo tal qual o seu odio necessita que seja. Praticam-se para com ella as maiores infamias, e consideram-se como merecidas represalias. Esta illusão, meio voluntariosa, explica por si só, que certas más acções, d'uma ordem abominavel, possam ser praticadas por determinados seres, os quaes no fim de contas, não são verdadeiros monstros. A baroneza de Node—pois que se trata d'ella—não se deve classificar como tal. A prova está em que ao entrar em casa, de regresso da excursão de policia improvisado, de novo respondeu á voz tentadora com um «não» mais energico ainda do que o primeiro. No tempo que demorou a transpôr a distancia que separa a rua Lacépède da rua Barbet-de-Jouy, as probabilidades de reconstruir a sua existencia sobre os destroços da familia de Chalinhy—criminosa chimera, á qual se abandonára, em pensamento, durante treze dias de espectação—voltavam de novo ao seu espirito. Por uma variação singular de sua sensibilidade, desde que sabia a verdade, encontrava mais fortes argumentos para repellir uma tal idéa, e, portanto, com ella o acto denunciador que demandava, do que quando duvidava ainda. É que uma intima, uma apaixonada satisfação d'amor proprio, a inundava completamente, e, durante uma hora, amorteceu o ardor da antiga ferida da inveja.
A violencia do odio,—o principal motor da sua alma havia tantos annos—achava-se paralisado pelo orgulho de conhecer, d'esta vez de maneira que julgava decisiva, a falta da prima.
A superioridade da virtude conjugal, que todas{76} as mulheres reconhecem no fundo da sua consciencia, muito embora apparentemente desdenhem d'ella, já a não possuia mais Valentina de Chalinhy sobre Joanna, ao contrario poderia antes ter sobre ella uma superioridade, mostrando-se generosa. «Calar-me-hei e ficaremos quites...» Esta phrase que repetia em voz alta, «Ficaremos quites...» resumia perfeitamente o estranho trabalho do seu pensamento desmoralisado pela sua vida. Punha d'um lado a affronta que tinha feito á prima roubando-lhe o marido, e encontrava este prato da balança muito leve, comparando-o com o outro no qual pesava as vantagens que sacrificava—não se julgando culpavel d'uma infamia.
Devia ir á «Opera» n'essa noite, para o camarote dos marquezes de Chalinhy, no qual tinha logar certo, uma segunda-feira em cada quinze dias.
Este convite permanente constituia uma das muitas gentilezas de Valentina para com ella, e que a encantadora mulher empregava para auxiliar a prima, apezar do desfalque na sua fortuna, a manter-se á altura da grande vida parisiense. Ordinariamente subia a escadaria do theatro que conduzia aos camarotes de primeira ordem, com uns sentimentos de acrimonia constantemente renovados.
Lembrava-se do tempo em que tinha tambem uma frisa de assignatura. Muitas vezes para lá convidou sua prima, então solteira—e agora era ella que recebia a esmola humilhadora duma galante hospitalidade!—N'aquella segunda-feira, depois do episodio da tarde, uma unica impressão a{77} dominava, um desejo, quasi uma necessidade de tornar a ver a frequentadora da pequena casa clandestina, espiar, estudar a sua physionomia, gosar com o contraste entre a marqueza de Chalinhy, altiva e elegantemente vestida, adulada e virtuosa, que reinava no meio opulento da sua realeza mundana, e a adultera aviltada, vestida modestamente, preparando-se para seguir para essa rua perdida n'um arrabalde afastado.