—«Se te tivesse dito que acreditava, protestarias e ter-nos-hias defendido. Em logar d'isto, fez de generosa, ella que não quiz admittir que a sua Joanna e o seu Norberto possam enganal-a, e tu preparas-te para me pedir que seja prudente, para a poupares. Confesso. Diviso este pedido nos teus labios. Dispenso-te de o fazeres».

Fallou com uma irritação crescente, que provinha da sua profunda decepção. Esperava encontrar Chalinhy pesaroso, para o interrogar, para obter d'elle a declaração da carta anonyma, para{109} conseguir que lh'a mostrasse, e para emfim, o aconselhar a que procedesse a um rigoroso inquerito, o qual, em sua opinião, devia ser a perda da rival. Todo o seu plano fora porém, destruido. Porque artificio? Suspeitava-o, sem comtudo comprehender como a discussão das suas relações com Chalinhy, tinha substituido a da carta anonyma.

—«Joanna», replicou Chalinhy; com aquella accentuação de voz que se emprega para com as creanças que não desejamos molestar, «tu não és justa, nem comigo, nem com Valentina.

«Porque a accusas d'um calculo que não está no seu pensamento, juro-to? Se a tivesses visto, como eu, aqui, ainda ha pouco, não duvidarias da sua sinceridade. Soffria e censuram-na ainda. Eis toda a verdade. Não acreditas?...»

—«Não,» disse, com uma dureza na voz que denunciava o seu odio occulto, pela prima. Chalinhy cometteu a mais perigosa imprudencia,—estando collocado, como realmente estava, em consequencia das suas proprias faltas, entre duas mulheres, uma das quaes apenas o queria por aversão á outra—appelando para a ternura e para a piedade d'um coração em que sómente havia sede de vingança! Era exasperar ainda mais este cruel apetite, e Joanna, cedendo a elle, repetiu: «Não, não acredito. Queres saber porque? É porque a conheço melhor do que tu, meu caro, muito melhor, fica certo». Acompanhou esta phrase d'um mau sorriso. Sentou-se, conservando os olhos abertos, e, no rosto, evidentes signaes de obstinação. Movia entre os dedos crispados, uma faca de tartaruga para cortar papel,{110} que se achava sobre a meza a que se encostou, e ouvia, n'um mutismo pertinaz, Chalinhy perguntar-lhe visivelmente irritado, por a ver assim increpar Valentina em termos tão insidiosos.

—«O que significa tudo isto? Explica-te: Já uma vez, na semana passada, quando, jantamos em casa dos Sarliévre, proferiste as mesmas palavras enigmaticas e acompanhadas do mesmo sorriso... Queres dizer que ha na vida de Valentina coisas que não vejo, que não sei e que tu sabes? Não se falla a um homem da mulher que usa o seu nome, de maneira que possa tornal-a suspeita, quando nada de preciso se diz. O que ha? O que se passa? Respondes ou não».

Continuava calada, e os seus dedos a brincar cada vez mais nervosamente com o objecto que servia para occultar a grande agitação interior. Ao chegar o momento de consumar, por um testemunho directo e pessoal, a obra da deleção começada pela carta sem assignatura, hesitava, tinha medo. Chalinhy calou-se tambem. Uma idea, que não lhe tinha ainda occorrido, atravessava n'aquelle momento o seu espirito, e logo lhe pareceu evidente. Levantando-se bruscamente agarrou a amante por um pulso e obrigou-a a olhar para elle.

—«Joanna!» disse subitamente «tu é que escrevestes a carta.» E com a voz transtornada e como estrangulada pela indignação, repetiu. «Fostes tu que a escrevestes, fostes tu... Mas confessas então...»

—«Magoas-me» respondeu Joanna levantando-se e debatendo-se contra uma tão brutal violencia. «É indigno. Deixa-me».{111}

Chalinhy deixou-a, e passando a mão pela fronte como um homem que volta a si, depois d'um minuto de delirio, disse, envergonhado, quasi supplicante «Tens razão, é indigno. Perdoa-me. Mas peço-te sem violencia, responde-me. Recebi hontem uma carta anonyma, rasguei-a e nem quero pensar no que continha. Se foste, porem, tu que a escreveste, tudo mudou. O que n'ella se diz é então verdade. Dize, é tua a carta?»