—«Sim, é minha,» respondeu a amante, depois d'um novo silencio.
—«N'esse caso» e a voz de Chalinhy estrangulou-se para articular a suprema pergunta, «então é verdade?...»
«É verdade, é.» Depois, baixando novamente os olhos, rapidamente, como não desejando dar a si mesma tempo para se arrepender do que tinha feito e que era já irremediavel, começou a referir os acontecimentos que já conhecemos.
Contou o seu encontro com a prima no grande armazem da rua de Rivoli, a sahida d'esta por uma porta differente d'aquella aonde tinha o coupé, a partida da carruagem, a mentira d'essa noite a respeito do que fizera de tarde; a tenção formal que tinha feito de nada revelar a Norberto, etc.
Expoz depois o segundo encontro, tendo, é claro, o cuidado de dizer que fora casual—como tinha visto, na antevespora, sahir Valentina a pé, seguiu-a quasi machinalmente;—como a prima alugou novamente uma carruagem, não poude tambem deixar de alugar outra, e que, por isso, chegaram quasi ao mesmo tempo a esse bairro{112} perdido, proximo do Jardim das Plantas,—e o resto: A marqueza de Chalinhy sahiu da carruagem em frente do hospital, seguiu a pé até ao pavilhão da rua Lacépède, entrou na tal casa, chegando alguns minutos depois, um individuo em carro de aluguer, o qual consultou o relogio, com a impaciencia de quem chega tarde para uma entrevista.
—«Continuaria calada, juro-te; mas quando hontem e ante hontem a vi representar a comedia da suspeita contra nós, comprehendi que sabia ter eu surprehendido o seu segredo.
«Não foi a tia de Nerestaing que nos denunciou a ella; ella é que nos denunciou á tia de Nerestaing.
«Calculou que te fallaria no assumpto e quiz tomar a deanteira, acusando-nos... Então perdi a cabeça. Disse de mim para mim que eramos solidarios eu e tu, que não podia permittir que te fizesse tal, havendo-se trahido, e escrevi-te, uma primeira carta... Depois, no momento de t'a enviar, tive receio de que me despresasses... Comtudo era por ti, só por ti que te escrevia.
«Sim tive esse receio, disfarcei a lettra e não assignei!... Agora que sabes tudo, diz-me que acreditas que apenas procedi assim por tua causa, para que possas defender-te antes que ella te fira.
«Dize que me não desprezas por ter empregado este meio para te avisar. Oh! dize-me, meu amor, meu Norberto, dize-me.»