—«É justo» disse, fitando-a. Via-a agora como realmente era, e lia até ao fundo do seu coração. Ficou algum tempo insensivel, sem que ousasse interroga-la, e, depois, com um gesto rapido e uma grande aspereza na voz, accrescentou: «Dou-te{114} a minha palavra d'honra que lhe não digo quem me avisou. Além de que, necessito ainda de outras provas e hei de tel-as, dou-te a minha palavra tambem...» Sahiu da sala, debaixo da impressão d'esta ameaça, sem ter para aquella que o havia impellido para o caminho da vingança, nem uma palavra, nem um gesto.
Ella viu sahir o agente do seu antigo odio, que ia emfim ver saciado, sem ter força para o deter. Que iria fazer? O intenso furor de que ia animado, não recuaria, via-se bem, deante de nenhum meio de investigar a verdade, nem deante de nenhum extremo e punição. Joanna anteviu logo uma espera feita á porta da casa mysteriosa; a chegada de Valentina no dia seguinte, no immediato, ou em qualquer dia da semana; e um assassinato...
E seria ella a causadora. Um instinctivo movimento de terror a precipitou para a porta dos aposentos da companheira de infancia.
Era ainda tempo de reparar uma parte do seu crime, prevenindo-a.
No momento, porém, de pôr a mão no fecho da grande porta, occulta por um reposteiro de seda verde, graças ao qual o ruido d'essa tragica conversa não chegou ao ouvido da calumniada—a delatora deteve-se. Encolheu os hombros e seguiu para o lado opposto, em direcção á porta que conduzia á escada de sahida, que desceu, dizendo para si:
—«Ella não nos pouparia em igualdade de circumstancias. O furor de Norberto abrandará emquanto{115} procede ás investigações; e depois não fará escandalo por causa dos filhos. Abandonal-a-ha, restando-me em seguida fazer com que case comigo. Eu me encarregarei d'isso...»
E os seus pequeninos pés pousavam nos degráus com uma energia, como se já se achasse de posse d'aquelle palacio, no qual estava convencida, dentro em pouco, viria substituir a outra. Crispavam-se dentro das suas pequeninas botas, como se quizessem esmagar debaixo dos saltos um remorso que não conseguia anniquilar.
[VII
O retrato]
Sahindo, pela fórma porque o fez, do pequeno compartimento em que recebeu o terrivel golpe da espantosa revelação, Chalinhy não pensou no que fazia. Sentiu que não teria força em si e que necessitava deixar passar algum tempo antes de proceder. Era sobre tudo necessario que não visse Valentina. Se a visse, não poderia conter-se, fallar-lhe-hia com certeza no assumpto e não devia fallar-lhe. Tinha dado a sua palavra a Joanna e, além d'isso era sua convicção que não surprehenderia a culpada se não procedesse com dissimulação.{116}
Sahiu do palacio, dizendo que não vinha jantar. Depois da scena d'essa manhã, a sahida de Chalinhy, sem se ter despedido da esposa, era de natureza a causar admiração a Valentina, mas elle calculou que se voltasse a casa não poderia ser superior aos seus nervos e provocaria uma explicação plausivel. Caminhava depressa, com receio de que Joanna de Node sahisse logo tambem, e não queria encontrar-se outra vez com ella. A presença da perigosa amante, n'aquelle momento, era-lhe physicamente intoleravel. Tinha-o ferido muito bruscamente, muito brutalmente, n'uma das mais intimas fibras do coração.