Quando o recem chegado disse: «Venho da parte da marqueza de Chalinhy», a physionomia do creado ficou tão absolutamente inexpressiva como se nunca um tal nome tivesse sido pronunciado deante d'elle.
Valentina vinha então a essa casa sem que esse homem achasse a sua presença extraordinaria. Este novo indicio, d'um estranho mysterio, era de natureza a elevar ao auge a curiosidade do marido, que insistiu:
—«Entregae um bilhete ao sr. Dumont, e dizei-lhe que a senhora marqueza de Chalinhy me encarregou d'uma importante e pessoal commissão para com elle...»
O tempo que o creado demorou a ir e voltar—alguns minutos apenas—pareceu a Chalinhy tão longo que os mais desorientados projectos atravessaram o seu pensamento. Lembrou-lhe subir elle mesmo ao primeiro andar e forçar a porta do aposento d'esse tal Dumont que evidentemente o ia despedir, o que não era justo. Esta maneira de se apresentar pareceu-lhe impropria. Comprar o creado quando voltasse e obter sobre os frequentadores e frequentadoras da casa as informações que o ferro velho não tinha sabido dar; recusar-se{124} a sahir quando lhe viessem dizer que o senhor Dumont não estava em casa, tudo lhe passou pela imaginação.
Em breve o criado veio tiral-o de difficuldades, convidando-o a entrar n'um gabinete do primeiro andar, que servia de ante-camara. Depois retirou-se, dizendo:
—«O senhor Dumont pede desculpa de o fazer esperar algum tempo. Esteve muito incommodado esta manhã mas virá o mais breve possivel...»
Posto que a certeza d'uma explicação, que tinha para elle uma importancia tão tragica, concentrasse o espirito de Chalinhy n'uma unica e fixa idéa: «como forçar aquelle homem, quando entrasse, a confessar a verdade?» não poude furtar-se á tentação de olhar em volta de si. A sala em que se achava tinha uma janella para a rua. Na frente abria-se uma porta, que o criado com a precipitação, não fechou completamente. Chalinhy empurrou-a, com um gesto quasi machinal, e viu um segundo compartimento cujo aspecto causou a sua admiração: era uma especie de salão bibliotheca, illuminado por tres janellas que davam sobre o jardim, para o lado do qual o pavilhão tinha a fachada principal. Esta especie de galeria era vasta e estava mobilada com uma elegancia pessoal e sobria. Grandes cadeiras de espaldar, estofadas, ao estylo do seculo 17.º, mas que se via serem de construcção moderna. Os livros todos encadernados, estavam dispostos com ordem em estantes baixas, nas ultimas divisorias das quaes se viam fragmentos de marmore e de tijolo. Um buffete collocado proximo{125} d'uma das janellas do jardim tinha ao pé uma poltrona com rodas o que justificava a informação dada pelo auvernhez com respeito á doença do dono da casa, o qual devia permanecer de preferencia n'este salão, a julgar pela alcatifa já bastante usada. As paredes estavam completamente cheias de varios objectos; quadros a oleo, aguarellas, quadros em cobre, armas cinzeladas etc., etc. Deante da secretaria, um cavalete guarnecido d'um estofo antigo de côr rosa palida, com grandes flores de prata, sustentava um quadro oval.
Chalinhy approximou-se do quadro para o observar, e ao vel-o, teve que sentar-se, tal foi o seu espanto pelo inesperado, ao reconhecer a pessoa cujo retrato estava reproduzido na tela. Era sua mãe.
Sua mãe?... Sim, era ella, e pintada por um artista de que bem depressa conheceu a obra e a assignatura: Miraut. Existia um retrato della, de corpo inteiro, pintado pelo mesmo artista, no salão do palacio Chalinhy. Esse grande retrato tinha sido feito no mesmo anno—indicado n'um dos cantos da tela: 1875. Foi na epocha em que aquelle pintor, hoje velho, estava em plena voga. Os filhos não tinham nunca visto esta reproducção, que continha sómente a cabeça e o busto. Sim, era sua mãe, não tal como a havia contemplado no leito da morte, quatro annos antes, envelhecida prematuramente, pela terrivel doença que a victimou, um cancro no figado, com o rosto emmagrecido, amarellecido, e torturado pela dôr—mas a «mamã» da sua infancia, com os seus bellos olhos{126} avelludados d'então, tão negros e tão doces no seu olhar d'uma idealidade digna de Prudhon; com o seu sorriso feliz nos labios finos e flexiveis; com as madeixas escuras dos seus cabellos que apartava na frente em dois bandós ondulados, á moda d'então, com a linha correcta e cheia dos seus encantos, e com a dôr do seu rosto, que tinha a delicadeza da petala da rosa.
Porque estranho acaso este retrato se encontrava ali, deante d'esse «bufete», n'uma sala d'esta casa onde vinha, elle, o filho d'essa mulher, procurar a explicação d'um segredo que affectava a sua honra de marido? Um acaso? Não. Sobre o mesmo «bufete» existia tambem uma moldura de couro, com tres divisorias, onde se viam tres photographias de sua mãe, em epochas differentes,—uma mais nova do que o retrato, outra da edade de quarenta annos, e a terceira da edade de cincoenta; e, ao lado, n'uma moldura oval, escura, a reproducção d'uma outra photographia que elle, Chalinhy, lhe mandou tirar depois de morta.