Uma madeixa de cabellos se divisava através o vidro, e a data do anniversario para elle sagrado: «5 de setembro de 1897» lia-se a um canto do cartão. Estaria sonhando? Ainda mais, n'uma terceira moldura, que fazia «pendant» com a primeira, appareciam-lhe agora photographias suas: uma que o representava ainda creança, outra aos dezeseis annos, e ainda outra recente! ... Vendo, como em certos casos de allucinação, a reproducção da sua propria pessoa, não teria experimentado{127} uma impressão mais violenta, tão violenta, que chegava ao terror...
Onde estava?... Em casa de quem? Que occulta ligação, e de que nunca sequer suspeitára, o unia á pessoa que ali vivia entre esses objectos, e que o conhecia desde a infancia, que conhecia sua mãe desde muitos annos, que conhecia sua esposa—sem elle o saber?
Um novo indicio, que mais fez desvairar a sua razão, confirmava a denuncia que o conduzira áquella casa: n'um biombo de seda, collocado defronte da janella, e no qual se achavam suspensas varias miniaturas de familia, viu tambem pequenas photographias de Valentina e dos filhos.
A estranheza d'uma descoberta, tão completamente imprevista, que chegava a ser phantastica, o silencio d'esta sala tão reservada, que o ruido da rua já de si silencioso difficilmente ali chegava, o contraste entre o que procurava e o que vinha encontrar—tudo contribuiu para mergulhar Chalinhy n'uma especie de hypnose, de que o despertou de repente, a approximação d'um homem, ao qual dez minutos antes se preparava para exigir uma explicação, ainda mesmo pela ameaça.
Uma porta de dois batentes, que um reposteiro disfarçava entre duas estantes, se abriu repentinamente. O ruido d'uma pesada cadeira de rodas annunciou a chegada do doente. O senhor Dumont—porque era elle—estava immovel na sua cadeira mechanica, que um enfermeiro empurrava. O paralytico era um homem de sessenta annos, pouco mais ou menos, todo branco, e que devia{128} ter sido muito bello, porque o seu rosto, emaciado pelos longos soffrimentos, conservava as largas e nobres linhas que revelam a raça.
Ligeiras deformações: a bocca um pouco torta e o olho direito algum tanto elevado, marcavam na sua cara, de uma infinita melancholia, o stygma da inexoravel nevrose. O braço direito, que não podia mover, repousava, inerte, sobre a perna, emquanto que com a mão esquerda movia um punho de cobre ligado á cadeira e com o qual lhe dava a direcção desejada. O fato, muito apurado, revelava as minucias dos seus cuidados pessoaes, tão raros n'estes condemnados á morte, e que são como que um ultimo e pathetico protesto contra a sua inevitavel perda. O brilho dos olhos, tão notavel n'estas longas agonias, denunciava a lucta desesperada da energia animal contra a morte proxima.
Não exprimiam esses olhos, brilhantes e muito negros, emquanto as rodas da cadeira giravam deante da porta, nenhum presentimento da impressão que n'elles ia apparecer em breve. É necessario dizer—e é a explicação da facilidade com que o visitante foi recebido—que, na sua ultima visita á rua Lacépède, n'essa funesta segunda-feira a marqueza de Chalinhy falou ao doente d'um negociante que tinha lindas estatuetas do seculo XVIII.
A acquisição d'algum d'esses objectos raros, capazes de figurar n'uma das suas estantes ou na grande vitrine ao fundo da galeria, era a unica alegria do paralitico. Por um mal entendido, quiz{129} a fatalidade que o negociante que Valentina mandou a casa do sr. Dumont, se esqueceu de lá ir. Quando a sua cadeira rolante transpoz o limiar da porta e que viu, em logar do bric-a-braquista, a figura de Norberto de Chalinhy, a sua mão esquerda crispou-se no braço do movel, n'um movimento quasi convulsivo. Endireitou o busto e uma emoção d'uma intensidade extraordinaria lhe descompoz as feições. Da sua bocca offegante escapou-se um intenso grito e bradou aos creados que o acompanhavam, n'uma ancia angustiada: «parem, parem...». Pararam com effeito, a tempo de Chalinhy, immovel de surpresa deante d'esta tragica apparição, ver duas grossas lagrimas a saltarem dos seus olhos fixos e deslisarem pelas faces macilentas e cavadas. Em seguida o velho disse, como n'um gemido: «entre, mas entre, entre...». A angustia que se traduziu nas suas palavras causou, sem duvida, admiração aos creados, habituados aos signaes da approximação da crise. Fizeram recuar rapidamente a cadeira e fecharam a porta. Ainda Chalinhy estava sob a impressão do grande abalo que lhe produzira esta scena, tão terrivel como rapida, quando um dos creados, precisamente o que o recebeu, tornando a apparecer, a tremer todo e n'uma grande afflicção, lhe disse:
—«O patrão está com um ataque, e não ha ninguem em casa senão eu e o enfermeiro...»
—«Onde mora o seu medico?», perguntou Chalinhy. «Eu me encarrego de o ir chamar».