—«Supplico-te, meu amigo» disse a marqueza de Chalinhy, detendo-o. «Tranquilisa-te.» E com uma expressão de terror, sempre crescente, accrescentou ainda: «Não vás a casa do advogado. Não pronuncies o nome de Raynevilhe a ninguem. Reconheceste-o sim, pois é verdade ser esse o seu appellido. Emquanto ao processo de que fallaste, existiu tambem e elle foi condemnado... Mas, que vaes fazer? Queres obrigar os mortos a fallar?

«Sim. É um amigo d'infancia de tua mãe. Teve piedade d'elle depois que praticou uma enorme falta pela qual foi horrivelmente punido.{145}

«Quando se viu proxima da morte, teve ainda pena do desgraçado. Era um doente e vivia inteiramente só, por isso pediu-me para a substituir... Ah! meu amigo, não ultrages a memoria de tua mãe, depois de me teres ultrajado a mim! Respeita a sua ultima vontade, como eu fiz...»A marquesa esquecera por completo as recriminações do principio da conversa, esquecera Joanna de Node, não se lembrava mais de ciumes; n'aquelle momento sómente via que era forçoso obstar, por todos os meios, a que o marido proseguisse no inquerito, por isso concluiu por dizer: «Promette-me que tudo acabou, que ficarás por ahi! Que queres tu descobrir mais?»

—«O que quero descobrir mais? Quero saber porque motivo minha mãe me occultou esse acto de caridade, e porque motivo te pediu que m'o occultasses tambem.»

—«Valentina,» continuou Chalinhy, supplicante, «começaste a dizer-me a verdade; vae até ao fim... Como queres tu que acredite? Como queres que simples visitas de caridade para com um homem condemnado, expliquem a offerta d'um retrato como o que lá vi, feito tambem a occultas. Nunca ouvi fallar d'esse retrato, nem eu nem ninguem. Foi feito propositadamente para esse homem, percebes, para esse homem!... E a minha photographia! Porque a tem tambem sobre o buffete? Não me digas que é signal de reconhecimento para com a sua bemfeitora. Não, não e não. Ha outro motivo, forçosamente... Falaste de caridade e não a tens para commigo ajudando-me{146} a expulsar do espirito uma ideia que se começou a apoderar de mim, que me tortura, que não quer abandonar-me,—a repellil-a,» accrescentou com um modo sombrio, «ou a acceital-a.»

—«Qual ideia?» balbuciou Valentina.

—«Teria esse homem, a quem minha mãe proporcionou tantos cuidados até ao fim da vida, e ao qual tu os proporcionas tambem, depois d'ella, na sua mão meio de a perder, de nos perder a todos... Não queres que vá a casa do meu advogado, porque? Porque receias que o seu nome e o nosso sejam pronunciados juntamente. Figuram, por acaso, juntos ao processo, e occultavam-m'o sempre?... Não me impedirás de o saber...»

—«Fica sabendo que esse triste acontecimento nada tem de commum comnosco, respondeu a marqueza de Chalinhy. É sinistro, mas bem simples: O senhor de Raynevilhe tinha um tio, muito rico, e, achando-se um pouco embaraçado por falta de dinheiro, arrastado por esse meio parisiense, como tantos rapazes de boas familias, sendo os restantes herdeiros d'esse tio todos muito abastados tambem, concebeu a ideia de assegurar só para elle a herança, que tantos intrigantes invejavam, imitou a letra do tio e fez um testamento falso. Eis o seu crime. É grande, mas expiou-o com tantos annos de martyrio... Foi condemnado, e depois que cumpriu a pena, não viveu, n'esse bairro humilde, senão para os pobres e para Deus... Podes, em querendo, verificar se o que te digo é ou não verdade...»

—«Esse homem é, pois, um falsificador, um ladrão,»{147} respondeu Chalinhy, duramente, asperamente. «E pedes-me que não procure conhecer os motivos porque minha mãe o tornou a ver, quando sahiu da prisão—para que tu os conheças tambem? Pode-se ter consideração por um assassino, por não merecer o desprezo, mas por um falsario, um ignobil falsario!...»

—«Cala-te, meu amigo, cala-te, supplicou Valentina. Não quero ouvir-te pronunciar taes palavras a respeito d'elle!...» Deteve-se como que petreficada pela phrase que ousára proferir. Olharam-se mutuamente, sem que nenhum d'elles tivesse força para continuar uma tão tragica conversação, que a entrada d'um creado que vinha trazer uma carta tornou mais tragica ainda. Entregando-a, o creado disse: