—«É do doutor Salvan, para o sr. marquez. A sua carruagem espera lá em baixo pela resposta.»
—«Diz que fica entregue e que não tem resposta. A carruagem do doutor Salvan pode partir» accrescentou Chalinhy, depois de ter deitado um rapido olhar para o bilhete que entregou á esposa, logo que ficaram sós. Continha apenas dez linhas traçadas, rapidamente, a lapis, pelo medico, mas que linhas para ella que as lia, debaixo do olhar do infeliz a quem em vão tentara dissuadir: «Encontrei o sr. Dumont muito mal. Não pode fallar. Julgo, comtudo comprehender que deseja vel-o. A sua agitação é tal que tomo sobre mim a responsabilidade de lhe pedir que conclua a sua boa acção d'esta manhã, voltando á rua Lacépède, tambem. A minha carruagem o condusirá. Não abandonarei{148} o doente. Venha, se pode. Á noite talvez já seja tarde.»
—«Ah! Norberto,» implorou Valentina, como n'um gemido, «não é possivel que o deixes morrer assim, que lhe recuses o que pede... Ainda é tempo. Vem. A carruagem de Salvan ainda não partiu. Vamos n'ella, mas vem! vem! Corramos!...»
—«Não,» respondeu Chalinhy deixando-se cahir n'uma cadeira, e apertando a cabeça com as mãos, «não vou. Nada comprehendo, nada sei senão que esse homem e tudo quanto lhe diz respeito me causa horror.»
—«Cala-te» gritou ella de novo, n'um accesso selvagem; e estreitando-o nos braços com uma especie de ardôr desesperado, arrastava-o dizendo: «Mas vem; vem de pressa. Vem. Ah! Queira Deus que não seja já tarde. Elle é teu pae. É teu pae!...»
[IX
A morte]
Valentina não accrescentou uma unica palavra á confissão que lhe escapou, contra sua vontade, e que não fez mais do que antecipar a inevitavel conclusão a que a convergencia de tantos indicios{149} reveladores, arrastariam Chalinhy, mais tarde ou mais cedo. Elle, por sua parte, não fez nenhuma pergunta mais. Seguiu, quasi automaticamente, a mulher desvairada, descendo com ella a grande escadaria e atravessando tambem com ella o perystilo. Quando chegaram á porta do palacio o «coupé» do medico tinha partido já.
—«Meu Deus!» exclamou Valentina. «Deu-se o que eu temia. É muito tarde! Ah! E pensar que talvez morra n'este instante!...» Foram-lhe necessarios alguns minutos para arranjar uma carruagem de praça que levou proximamente meia hora, apezar das reiteradas instancias, em fazer esse longo trajecto, quasi metade de Paris, que a encantadora mulher tinha andado tantas vezes, occultando-se. E, comtudo, agora fazia o mesmo trajecto apertando nas suas as mãos d'aquelle a quem tanto tinha querido encobrir estas visitas. Norberto continuava calado; mas, de tempos a tempos, correspondia á pressão d'esses dedos fieis, e, na dor intima em que se debatia sob o imperio da mais dolorosa das revelações, a presença da mulher que por tanto tempo desconheceu e que via tão carinhosa, tão dedicada, enternecia-lhe o coração. Não ignorava actualmente, nada com respeito ás suas traições. Tinha-o ouvido gemer de dor ao comprehender que suspeitava d'ella, de maneira tão injuriosa, sugestionado por uma amante—e que amante!...
Traições, injurias, humilhações, nada tinha a perdoar-lhe porque tudo havia esquecido na sua piedade pelo marido que soffria, e que ella via soffrer.{150} Porque se não teria evidenciado mais cedo esta alma tão retrahida e tão nobre? Porque não revelou tambem Valentina, para com o homem que amava dedicamente, mais vehemencia n'esse amor, mais expansões, porque lhe não patenteou toda a intensidade do seu affecto?
Ai de mim! A prophetica formula, do poeta antigo será sempre verdadeiro tanto no dominio dos modestos destinos particulares como nos das evoluções sociaes: