—«Está muito afflicta, mamã?... Quer alguma coisa de mim? Estou prompta para lhe fazer o que desejar.»

—«Quero,» respondeu ella. A sua voz tão fraca n'estes ultimos dias tornou-se forte. Senti que ia gastar os ultimos lampejos da vida. «Como isto é penoso», acrescentou ainda.

«A sua enorme perturbação assustou-me tanto que lhe disse:—«querida mamã está muito incommodada. Se tem qualquer pedido a fazer-me sabe que estou sempre prompta. Espere para amanhã, para depois ou para d'aqui a oito dias... Terá então já recuperado as forças...»

—«Não,» respondeu, mostrando-me o rosto terrozo, amarellado, «terei ja morrido. É precizo que te falle agora, Valentina,» continuou, com a sua voz d'outro tempo, readquirida por um milagre de energia, «repito-te, vou morrer. Sei-o perfeitamente. Disse-mo o medico quando lhe declarei que tinha um assumpto extremamente importante a regular. Esse assumpto consiste em confiar á tua honra um segredo que não deve ser conhecido de{161} ninguem, excepto de Norberto, em duas circumstancias que precisarei. Consiste ainda em te encarregar d'uma missão muito delicada, muito penosa. Se vires que não podes cumpril-a, peço-te que m'o digas francamente.»

—«Guardarei o segredo, mamã, e se a missão não é impossivel, cumpri-la-hei. Prometto-lho.»

—«Obrigada,» disse ella, «mas para ter coragem de te fallar, preciso orar primeiro.»

«Fechou os olhos. Na sua triste figura, tão doente, vi uma expressão de intensa dôr.

«Os labios descórados recitavam muito baixo uma oração que eu não ouvia. Tinha medo...

«Quando a oração mental terminou, disse-me:

«Apaga a luz. Não poderei fallar se me vires e eu te vir a ti.» Obedeci-lhe: