«Vem para o pé de mim», repetiu ella, «muito proxima, e dá-me a tua mão.» Obedeci-lhe ainda.

«Os seus dedos ardiam em febre e na obscuridade em que nos achavamos, o som d'essa voz que parecia vir da outra vida,—e não era a confissão d'uma alma que não pertencia já a este mundo?...—nunca me esquecerá.

—«Minha filha», começou ella, «o que tenho a referir-te deve ser dito sem interrupção.

«Amei um homem que não era meu marido, que vive ainda e é o pae de Norberto. Chama-se, direi antes, chamava-se Filippe de Raynevilhe...

«Estando prestes a entregar a alma ao creador e a ser julgada por uma falta que bastante expiei já e que expio ainda n'este momento, não tentarei desculpar-me.{162}

«Conheci Filippe antes do meu casamento; era filho d'um dos visinhos do solar de meus paes, na provincia. Amámo-nos, sem reserva, com a esperança, com a certeza de um futuro enlace, que um inesperado acontecimento, uma mortal inimisade entre seu pae e o meu, a proposito d'uma questão d'interesse, tornára impossivel.

«As duas familias sabiam dos nossos sentimentos.

«A sua obrigou-o a fazer uma viagem, e a minha occultou-me que havia sido violentado a partir.

«Consenti em casar com o marquez de Chalinhy.

«Repito-te que não procuro justificar-me.