Casimiro faz entrar o modelo em sua casa, e a familia Proh retira-se tambem do patamar, depois de ter tido o cuidado de apagar o que restava de giz por cima da porta.


IX
Uma colhér de prata

Não é sem custo que o joven artista consegue do seu modelo que se deixe pôr em posição, e principalmente que se não mecha depois de adoptada emfim a sua attitude. A final Rouflard aquieta-se; demais, Casimiro permitte-lhe conversar e elle usa da permissão. O antigo seductor tem-se feito muito loquaz com a edade; gosta de falar dos seus triumphos passados e enfeita as suas recordações de reflexões que são ás vezes picantes. Rouflard não é falto de espirito; este homem possuia tudo o que é preciso para fazer caminho no mundo, e foram todas as suas vantagens que o perderam.

Casimiro ouve o seu modelo contar-lhe os seus triumphos com as damas, mas em breve conduz a conversação a um assumpto que o interessa mais. É da menina do quinto andar que elle gosta muito de ouvir falar!

—Mora ha muito tempo n’este predio sr. Rouflard?

—O senhor é muito delicado em dizer morar, meu Raphael; estar empoleirado é que devia dizer. Emfim não importa; ha seis mezes que o occupo, aquelle buraco, e confesso que nunca lá tive vontade de cantar: «Como se está bem n’uma agua-furtada aos vinte annos!...» É verdade que já não tenho vinte annos; mas, ainda que os tivesse, não seria nunca da opinião de Béranger. Mas isto de poetas, em o pensamento sendo original é o sufficiente! Bem se importam elles com a verdade!

—E quando o senhor veiu morar cá para cima, já a menina Lisa aqui habitava com a avó?

—Sim, já cá estava, mas havia pouco tempo, pelo que tenho ouvido dizer.