Mas o joven pintor não está por forma alguma disposto a viajar.
—Sem ir tão longe, diz elle, ha nos arredores de Paris sitios lindos, vistas encantadoras; mas ninguem pensa em pintal-as, porque estão ás portas de Paris, e não se liga merecimento senão ao que está longe de nós. Eu, minha querida amiga, não vejo razão para se fazer pouco caso d’uma coisa que nós podemos arranjar sem incommodo e sem despeza. Assim, por exemplo, muito perto d’aqui, por detraz do forte de Romainville, n’aquelle sitio que era n’outro tempo o bosque, ha outeiros d’onde a vista é magnifica, tem a gente deante de si uma extensão immensa de terreno; podem os olhos abranger mais de doze leguas em redor. Em baixo fica Patim com os seus fornos de cal, que tornam a paizagem pittoresca; depois está o canal que corta o caminho, e um pouco mais adiante S. Diniz, Montmorency, Pierrefitte. Á esquerda vê-se Montmartre, o Monte Valeriano, e Saint-Cloud, que se desenha no horizonte. E tudo isto entremeado de bosquesinhos, de bonitas casas de campo, de fabricas. Affianço-lhe que é um panorama admiravel. Quer ir vel-o?
A sr.ª Montémolly deixa-se conduzir ao que era n’outro tempo o bosque de Romainville, e entretem-se a colher algumas flores campestres, emquanto Casimiro está sentado na relva esboçando á pressa algumas vistas; mas as flôres são raras no terreno barrento, que é bom para fabricar louça, mas não para fazer brotar as rosas. Demais, Ambrosina é sempre a mulher da moda, e portanto leva d’alli o seu companheiro dizendo-lhe:
—Meu riquinho, por mais que o senhor diga, as suas lindas vistas de Romainville não valem a cascata e o lago do Bosque de Bolonha.
—Para a senhora, comprehendo isso; perdõe-me pois, nunca mais a trarei para este lado, é preciso ser pintor para o apreciar.
—Meu amigo, é mister procurarmos a nossa victoria, que não poude seguir-nos n’estes caminhos cheios de barrancos, onde a gente a cada instante corre risco de cair n’um buraco, ou de se enterrar na areia! Vamos jantar ao Ledoyen nos Campos-Elyseos, isso ha de mudar-nos completamente...
—Ahi está o que são as mulheres! e falava a senhora em ir á Suissa! lá é que ha caminhos escarpados, difficeis de trepar!
—Sim, mas está a gente na Suissa, inscreve o seu nome no registo das estalagens; e vê-se alli que os srs. Fulanos de tal passaram por aquelle sitio, e quizeram trepar o monte Righi.
Este dia passa mui lentamente para o joven pintor, que almeja pelo momento em que poderá fazer o retrato de Lisa. E, posto que faça todo o possivel para ser com Ambrosina tão amavel, tão alegre como de costume, tem por vezes momentos de preoccupação, ou de distracção, que não escapam á sua zelosa amante; esta diz-lhe então de subito: