—Em que é que está pensando?
—Eu... em nada... estou-a ouvindo.
—Está-me ouvindo? O que é que eu acabo de dizer?
—O que acaba de dizer-me? já não sei o que foi, era então alguma coisa muito interessante?
—Bem vê que não me estava ouvindo. Ah! olhe, Casimiro, eu não sei o que lhe aconteceu, mas, com toda a certeza, o senhor tem alguma coisa! anda pensativo, responde fóra de proposito ao que lhe digo. Oh! n’isto andam amoricos.
—É que vendi o meu quadro, e ando a pensar n’aquelle que hei de fazer agora, aqui está o que é.
—O senhor não fala verdade! não é n’isso que pensa. Oh! eu conheço bem o mundo! não me enganam assim!
—Tanto peior para a senhora, porque as pessoas mais felizes são aquellas que se deixam enganar mais facilmente.
—É possivel, mas não quero essa felicidade.
Emfim, passa-se o dia e a noite tambem; Casimiro levanta-se muito cedo, escolhe a téla, arranja a palheta, e prepara um cavallete que já lhe não servia e que elle tencionava deixar em casa da sua vizinha, para não ter o trabalho de o levar e trazer todos os dias. Olha a cada instante para o relogio, receia ser indiscreto chegando antes da hora que se ajustou.