—É sem duvida a mim que a senhora procura, e é para me dar alguma obra a fazer? tenha a bondade de entrar...

—Não, responde Ambrosina com um tom arrogante, não é a menina quem eu procuro, não é pela menina que estou aqui, é este senhor quem venho procurar, este senhor que já não tem um momento para me dedicar, que não acaba o meu retrato, porque está fazendo o da menina. Aqui está então a causa de todas as suas mentiras, da sua mudança de procedimento; eu bem sabia que n’isto andavam amoricos! é para estar com esta menina que já não tem tempo de me ir vêr. Ah! como os homens são falsos!

A voz da mulher ciumenta torna-se estrepitosa, os seus olhares lançam chispas. Lisa está toda a tremer, grossas lagrimas lhe obscurecem os olhos, depois uma voz tremula e quebrada sae do leito, e diz:

—Lisa! o que é isso? pareceu-me ouvir gritar; estás altercando com alguem?

—Não, avósinha, não, não é nada...

E a donzella deita para Ambrosina uns olhares supplicantes, como para lhe dizer:

—Por quem é, não fale tão alto!

Mas já Casimiro se tem levantado, pegando na palheta, no quadro e nos pinceis, e dirige-se para a porta dizendo á sr.ª Montémolly:

—Faça favor de sair commigo, minha senhora, para pouparmos a esta menina uma bulha e uma scena pouco decorosa, faço isto, não pela senhora, mas em attenção a ella. Menina Lisa, desculpe-me de ter sido a causa d’este barulho, que acordou a sua avó, e pode ficar certa de que não tornará a acontecer similhante coisa.

Casimiro sae immediatamente para o patamar; Ambrosina, furiosa de ciumes, hesita em saír, e olha para Lisa, que parece sempre pedir-lhe que se cale, mostrando-lhe o leito da enferma. A zelosa dama decide-se emfim, sae do quarto, depois de ter lançado sobre a rapariga um olhar ameaçador, depois desce atraz de Casimiro, que entra para sua casa. Ella entra tambem, e deita um olhar furioso sobre Rouflard, que se afasta encolhendo os hombros e olha para o pintor como para lhe dizer: