—Não é culpa minha; o senhor é que não teve a prudencia necessaria.
Ambrosina entra no atelier, e atira comsigo para uma poltrona, exclamando:
—Ha muito tempo que duram estes amores, senhor, e que esta rapariga é sua amante?
Casimiro, que recobrou todo o seu socego, põe-se a trabalhar na sua obrasinha, e responde:
—Minha senhora, o ciume cega-a e faz-lhe dizer coisas indignas d’uma mulher que se preza. Estou fazendo o retrato d’uma menina que mora no meu predio; parece-me que isto é uma coisa que me é permittida, pois que o meu officio é tirar retratos. Achei alli uma cabeça encantadora, senti o desejo de a reproduzir na tela, tudo isto é muito natural. Propuz á menina Lisa que me servisse de modelo; ella a principio recusou-se por muito tempo, porque não quer deixar a avó um unico instante. Eu disse-lhe que iria trabalhar em sua casa, e ella recusava-se ainda; mas ganha apenas com que prover á sua existencia, e a doença de sua avó exige por vezes gastos inesperados; fiz comprehender a esta menina que, consentindo em me servir de modelo melhoraria a sua situação, e ella finalmente cedeu. A senhora pergunta-me desde quando sou amante d’essa pobre menina. Ah! se a conhecesse, não teria similhante pensamento! ella é recatada, honesta, não pensa senão no seu trabalho, em alliviar e consolar a sua velha doente, e eu, deante d’um procedimento tão digno, tão puro, ter-me-hia envergonhado de lhe dirigir uma unica palavra de amor.
A sr.ª Montémolly, que tem escutado tudo isto com impaciencia batendo muitas vezes com o pé no sobrado, assim que Casimiro acabou de falar, exclama:
—O senhor pensa que vou dar credito ás suas historias, aos seus contos! ao que parece, tem-me por tola! O senhor não tem dito uma palavra de amor a essa rapariga? O que estava então a fazer quando eu entrei? não estavam em atitude de quem trabalha, nem o senhor nem o seu modelo, olhavam um para o outro muito attentos, como se quizessem comer-se com os olhos; não ha necessidade de se falar de amor, quando se olha assim para alguem; os olhos dizem o bastante! e se o senhor não tivesse pensado em vir a ser amante d’essa rapariga, acaso teria feito um mysterio d’esse retrato, das suas idas ao quinto andar? E que tenciona então fazer do retrato d’essa menina?
—É um estudo, pol-o-hei no meu atelier.
—Pois saiba que o hei-de de fazer em tiras! E esse miseravel Rouflard, a quem o senhor tinha ensinado o recado, e que me disse que tinha ido ao Louvre! Estavam todos combinados para zombarem de mim!...
—Eu não ensinei recado nenhum a Rouflard, elle disse-lhe o que quiz.