—Ai! sim, pelas tres horas não pude resistir ao somno, é mais forte do que eu.

—Ah! que fatalidade, porque durante o seu somno poude alguem entrar n’esse quarto..

—Não me parece porque teria acordado.,.

—Suppôr que a menina tenha tirado essa colhér, isso não tem senso commum, depois do que aconteceu em casa da sr.ª Proh... que lhe causou tão grande degosto!

—É justamente por isso que me accusam ainda, a creada d’essa senhora disse-me: «A colhér foi-se juntar cem a da sr.ª Proh.»

—Isso é indigno!... mas socegue, Lisa, ha em tudo isto um mysterio que eu conseguirei descobrir, não descançarei emquanto a sua innocencia não estiver completamente reconhecida.

O joven pintor consegue acalmar um pouco a magua de Lisa, acompanha-a até á sua porta, e deixa-a promettendo-lhe mais uma vez que ha-de obrigar toda a gente a fazer-lhe justiça. Mas Casimiro promettia o que elle proprio não sabia como cumprir, porque debalde dava tratos á imaginação para adivinhar como era que as colhéres de prata desappareciam dos quartos onde Lisa passava a noite.

Depois de ter entrado um momento em sua casa, Casimiro sae, decidido a ir ter com Ambrosina, para saber se ella crê devéras que a rapariga seja criminosa. Mas já a aventura da noite é sabida em todo o predio; porque o primeiro cuidado de Adriana foi ir dizer ao porteiro que a menina Lisa deu em casa de sua ama segunda representação da noite em que ficara em casa da sr.ª Proh. Chausson, que sente certa sympathia pela inquilina do quinto andar, tem muita pena de ser obrigado a julgal-a criminosa, mas Rouflard, que escutou a creada de Ambrosina, diz-lhe:

—A menina é uma tola em ter má lingua! é mister ser imbecil, depois das historias da colhér perdida em casa da sr.ª Proh, para suppôr que uma rapariga que quizesse commetter um furto repetisse exactamente a mesma historia dois andares mais abaixo...