—Ah! ah! ah! ella quer-se apunhalar pela orelha. É uma grande farcista a tua ama. E esse Casimiro é rico tambem?
—Rico! elle! pelo contrario, não tem nada de seu. Então não percebeste a situação, e porque é que elle é escravo da senhora?
—Ah! sim, percebo agora; é ella quem o sustenta.
—Exactamente; tem-no seguro pela fome. Se o rapaz tivesse dinheiro, estou bem certa de que ella o não prenderia muito tempo.
—Olha, Adriana, não sei se tu és como eu, mas para mim os homens que não têem nada de seu, não prestam!...
—Eu não faço caso nenhum d’elles! Ora! um homem viver á custa d’uma mulher... é andar o mundo ás avessas! Por ventura o homem não foi feito para ganhar dinheiro e a mulher para o gastar.
—Pois, minha rica, ha ainda muitas mulheres bastante tolas que se deixam depennar pelos derriços. Olha, ahi tens a Bochechuda, tu conheces a Bochechuda?...
—Quem? A Luizita?
—Sim, mas todos lhe chamam a Bochechuda, porque parece ter sempre as faces inchadas. Emfim, ha já algum tempo, a Bochechuda travou conhecimento no baile Pilodo com um bonito rapaz, que lhe diz que é da mesma terra. Dansa com ella todas as dansas mais finas, mesmo as que ella não sabia. Depois convida-a para um jantar no campo no domingo seguinte; ella aceita; vae jantar com o seu novo conhecimento, que bebe como uma esponja; depois, quando chega a occasião de pagar a conta, aquelle senhor declara á Bochechuda que não recebeu da terra um dinheiro com que contava, e pede-lhe que lhe empreste com que pagar a despeza. Ella tinha felizmente levado o porte-monnaie. Empresta vinte francos ao tal sujeitinho, que paga e não lhe dá o troco. O jantar tinha custado apenas nove francos e dez soldos. Volta com ella a pé, não lhe offerece mais nada e larga-a muito cedo, com o pretexto de que tem um trabalho de escripturação a fazer para um tendeiro a quem serve de guarda-livros. A Bochechuda, que não gosta de ir para casa cedo n’um domingo, põe uma touca nova e vae ao baile Pilodo com uma vizinha. Quem é que ella encontra lá? o seu parasita, o seu novo conhecimento, que fazia a côrte a uma mulher e lhe pagava ponche com o troco da moeda de vinte francos que ella lhe tinha emprestado...
—Ah! a peça é bem pregada! e o que fez a Luizita?