—Sim, minha senhora, effectivamente, não ha nada mais facil; como a cortina está d’este lado, pode-se facilmente affastar.

—Tanto mais que, pela maneira porque ha de estar allumiado o quarto de minha mana, esta porta de vidraça ficará completamente na obscuridade. Pois bem, senhor, é aqui, de traz d’esta vidraça e sem que a pequena o saiba, que nós passaremos a noite, o senhor, a vizinha do primeiro andar e eu; parece-lhe que poderemos assim vêr tudo o que Lisa fizer?

—Certamente, minha senhora; mas, não comprehendo...

—Espere, espere, e estou certa de que ha de comprehender esta noite. O senhor terá a bondade de me trazer a menina Lisa, e fingirá que vae para sua casa, mas voltará aqui por est’outro lado; não se esquecerá do caminho?

—Fique descançada, minha senhora, não me esquecerei de coisa alguma...

—Até á noite, senhor.

Casimiro deixa esta senhora, procurando em vão adivinhar o que ella espera. Emcontra Rouflard e communica-lhe as suas inquietações. O ex-janota abana a cabeça, dizendo:

—Eu tambem não adivinho nada em tudo isso; mas em todo o caso, affianço-lhe que passarei a noite na escada deante da porta d’essa senhora, e que se algum larapio de colhéres tentar introduzir-se na casa, começarei pelo desancar.

Assim que dá meia noite, Casimiro dirige-se a casa da sua vizinha. Acha-a muito triste, a tremer, mas prompta a seguil-o, porque sua avó está a dormir. A rapariga apressa-se a pegar no seu trabalho, e, sem dizer palavra, vae acceitar o braço que lhe offerece Casimiro. Descem assim alguns degraus.