—Oh! minha senhora... minha mãe... já me não lembro d’isso!

As testemunhas d’esta scena tomam parte na alegria, no enternecimento d’estas duas mulheres, uma das quaes torna a encontrar a filha que tinha por morta ha muito tempo, emquanto que a outra, que quasi todos accusavam, que suspeitavam culpada d’uma acção deshonrosa, se vê agora abraçada, coberta de caricias e de lagrimas por uma bella senhora que é sua mãe. Lisa, no auge da sua alegria, extende as mãos a Casimiro, exclamando:

—Ah! o senhor é que nunca me julgou criminosa!

Depois agradece á sr.ª Durmont dizendo-lhe:

—E’ pois á senhora que eu devo o ter recuperado a estima do mundo, como é que se houve então para provar a minha innocencia?

—Minha querida menina, depois de tudo o que se passára, eu tinha adivinhado que a menina era somnambula, e não me enganava.

—O quê! eu sou somnambula!...

—Sim, sem duvida, quando está a dormir, sempre preoccupada com a colhér de prata que deu á sua velha companheira, e receando que lh’a furtem, a menina pega na que tem perto de si, pensando que é a sua, e esconde-a. Oh! isso não tem nada de muito extraordinario; tenho visto fazer a somnabulos coisas muito mais de espantar!...

—Mas, quando estou acordada, devia lembrar-me do que fiz estando a dormir!...

—Não, minha filha, os somnambulos não se recordam nunca do que fizeram emquanto estiveram entregues a esse somno em acção, e é isso o que ha de mais singular n’essa doença, porque é effectivamente uma doença, mas que passa com a mocidade, e desapparece inteiramente quando a edade tem acalmado as nossas paixões e o calor do nosso sangue.