—É minha a culpa? Eu não seria ciosa de certo se o amasse menos...

—Sim, isso diz-se sempre, mas eu não duvido dos seus sentimentos. Tem-me dado bastantes provas de affeição, tem-m’as dado até de mais... e como poderei eu pagar...

—Cale-se! agora vae dizer tolices, beba, que é melhor. O Champagne está á sua espera. Vamos, faça-me a razão... este é o meu vinho favorito...

—Á sua saude, querida Ambrosina; sim, bebo mas isso não me impedirá de lhe dizer que no fundo do coração não estou contente commigo. Não faço coisa alguma, não me falta nada, a senhora corre ao encontro de todos os meus desejos, paga a todos os meus fornecedores: é odioso, isto assim não pode durar!

—Na verdade, Casimiro, não sei o que tem hoje, mas está a dizer-me coisas muito desagradaveis. Como, porventura entre duas pessoas que se amam, não deve ser tudo commum, o prazer e o desgosto, a miseria e a riqueza? Se eu não tivesse um soldo de meu, se carecesse de tudo, pensa que me havia de envergonhar de lhe dever tudo, de partilhar da sua fortuna, de viver dos seus beneficios?...

—Oh! n’uma mulher, o caso é muito differente! uma mulher, é esse o seu papel, é a sua sorte; a mulher nasceu para ser protegida, soccorrida, sustentada pelo homem. As senhoras são feitas de uma das nossas costellas, por conseguinte são uma parte de nós mesmos. Mas o homem nasceu para trabalhar, para ganhar dinheiro, ou para o perder quando não é bem succedido nas suas emprezas. E quando elle passa todo o seu tempo a passear, a não fazer nada, senão divertir-se á custa da mulher, é o mundo ás avessas!

—Ah! como é cruel! E todos aquelles que nasceram com fortuna, com herdades, quintas... têem acaso necessidade de trabalhar?

—Não, mas tambem não têem necessidade de que os seus fornecedores sejam pagos pela dama a quem fazem a côrte.

—Mas, todos os dias se está vendo um homem que não tem nada casar com uma mulher que lhe leva um dote consideravel; e elle não se envergonha de acceitar esse dote. Bem vê que é a sua mulher que elle deverá o seu bem estar, a sua fortuna, que muitas vezes elle se apressará a dissipar com amantes. Por que razão se acha o senhor tão reprehensivel, emquanto que esse homem será bem visto na sociedade?

—Oh! minha querida amiga, é que ha ahi uma grande differença: esse homem veiu a ser marido da senhora rica, ella julgou-o digno de o unir a si por laços indissoluveis, emfim tem o nome d’elle. O marido torna-se dono da casa, o que é muito differente! Então pode mandar, pode pôr e dispôr d’uma fortuna que passou a ser sua...