—Espere; ha de vel-o bem depressa. De volta a Paris, ia eu frequentes vezes a Pierrefite vêr minha filha. Isto desagradava a minha tia, que me repetia sem cessar que eu me compromettia, que não acharia com quem casar, se não procedesse com mais prudencia. Eu não lhe dava ouvidos e continuava a ir vêr minha filha, que era fraquinha e delicada, mas gosava de boa saude. Infelizmente, a mim não me acontecia o mesmo: ia-me definhando de dia para dia, de fórma que os medicos receitaram-me uma viagem á Italia, ou pelo menos uma longa estada em Nice. Parti com minha tia, depois de ter bem recommendado minha filha á ama. Fiquei alguns mezes em Nice; não me restabelecia. Aconselharam-me que fosse passar uma temporada em Napoles. Fui para lá, mas minha tia, tendo que fazer em Paris, deixou-me por algum tempo. Tinha-lhe recommendado muito que fosse vêr minha filha, que se certificasse de que não lhe faltava nada.

«Quando minha tia voltou a ter commigo, disse-me que minha filha tinha morrido, e que a camponeza a quem eu a dera a crear, muito afflicta com essa desgraça, tinha saído de Pierrefite sem dizer em que sitio ia habitar. Fiquei muito mortificada com a perda da minha filhinha. Tinha-me sentido tão feliz por ter uma filha! fundava sobre ella toda a minha felicidade futura! Minha tia fez quanto poude para me distrahir. Andámos muito tempo a viajar; visitei a Italia toda, depois uma parte da Suissa. Finalmente tinha-me restabelecido, e voltámos a residir em Paris. Aqui, um sujeito rico, bastante amavel, ao menos fazia então todo o possivel para o ser, veiu fazer-me a côrte; era um antigo amigo de minha tia, e tenho motivos para crer que, desde muito tempo, ella lhe havia promettido fazer quanto pudesse para me levar a consentir em casar com elle. Este sujeito era muito mais velho do que eu; minha tia porém affirmava-me que assim ainda eu seria mais feliz; que um marido joven abandonava em casa a mulher para andar mettido com amantes, emquanto que um esposo, homem de juizo, andava sempre com a mulher nas palminhas das mãos. Que lhe direi? eu pensava não amar nunca mais... tinha perdido minha filha... Deixei-me casar para estar emfim em minha casa e não viver mais com minha tia, a quem o homem que me desposava tinha feito presente de uma linda casinha nos arredores de Paris.

«Mas não tardei a perceber que fizera uma asneira, e que me tinha ligado a um homem que de nenhum modo me convinha. Meu marido era ciumento, curioso, esmiuçador, intromettendo-se em tudo; pelo lado da fortuna, como eu possuia a minha, não tinha precisão de recorrer a elle. Isso contrariava-o, queria saber como eu gastava o meu dinheiro; convidei-o a que se não mettesse nos meus negocios; foi o começo das nossas questões. Mas aquelle senhor, que tudo queria saber, tinha o atrevimento de esquadrinhar tudo por toda a parte quando eu sahia, e creio mesmo que possuia segundas chaves de todos os meus moveis. O que é certo, é que um dia achou n’um cofresinho, no fundo da minha papeleira, as cartas que me escrevia aquelle pobre Augusto quando estava no exercito, e nas quaes falava da nossa filhinha. O meu amigo acreditará que meu marido deu por páus e por pedras, dizendo-me que eu o enganára indignamente deixando-o crer que era... Joanna d’Arc! Respondi-lhe que ainda se devia dar por muito feliz em eu ter consentido em ser sua mulher, mas que eu não viveria mais com um homem que remexia nos meus moveis e tinha a confiança de ler as cartas que eu recebêra antes de usar do seu nome. No outro dia executei a minha ameaça; aluguei uma casa, e mandei levar para lá tudo o que me pertencia. Meu marido quiz oppôr-se á minha saida; mas eu mostrei-lhe um rewólver que tinha comprado, e disse-lhe: Não só o deixo, mas prohibo-o, ouça-me bem, prohibo-o de se apresentar em minha casa... A lei auctorisa-o a isso, bem sei, porque não estamos separados judicialmente, o que faremos ámanhã, se quizer; mas, como pelo nosso contracto já estamos separados de bens, creio que podemos dispensar essa formalidade. Comtudo, repito, não tenha o atrevimento de ir nunca a minha casa, senão... é com este rewólver que o hei de receber. Meu marido é muito medroso... desde esse dia nunca mais ouvi falar n’elle.

—Bravo! oh! a senhora é uma mulher decidida! E juntou-se com a sua tia?

—Com minha tia! oh! nunca! não queria nada com minha tia, que foi quem me fez aquelle odioso casamento. Ficámos mal uma com a outra; pois não pretendia ella fazer-me voltar para meu marido! mas eu respondi-lhe n’um tom que lhe fez vêr que eu não era já a menina submissa ás suas vontades. Demais, ella morreu pouco tempo depois d’aquella separação; uma doença repentina a levou á sepultura em poucos dias; havia-me escripto para que a fosse vêr; tinha, affirmava, uma coisa importante para me communicar. Hesitei, dizendo commigo: Vae ainda pedir-me para que volte para meu marido. Emfim, resolvi-me a ir; mas, quando cheguei á sua quinta, já não era tempo, tinha ella morrido! Aqui tem, meu caro Casimiro, todos os acontecimentos da minha vida, agora já sabe porque, com grande pezar meu, lhe não posso offerecer que case commigo.

—Oh! minha querida Ambrosina! pela parte que me toca, devo confessar-lhe francamente que nunca pensei em tal, o casamento não me tenta, assusta-me, bem sabe que ha quem affirme que o casamento é o tumulo do amor.

—Oh! nem sempre... mas é certo... não me acha talvez bastante joven para ser sua mulher?

—Eu! pois eu penso lá em similhante coisa... não, eu penso... em fazer alguma coisa... em trabalhar...

—Trabalhar... Para quê? com que fim?