—Pois bem! então, se eu escrevesse um romance? Ah! isto não exige passeios nem sahidas; escreve a gente com todo o socego no seu gabinete. Eu tenho ás vezes idéas bastante originaes, talvez faça um romance divertido, um romance de costumes...

—Um romance! um romance! tenho ouvido dizer cem vezes que, para fazer um romance, era preciso ter visto muito, que era preciso ter corrido, ter estado nos sitios que se pretende descrever, sobretudo para fazer um romance de costumes; ah! se o senhor faz um romance extraordinario, inverosimil, então pode inventar...

—Não, eu prefiro o ordinario ao extraordinario.

—Então meu amigo, bem vê que não podia trabalhar socegadamente no seu gabinete; teria de andar, de ir algumas vezes a sitios muito arriscados, a esses bailes onde se dançam todas as danças possiveis; sob pretexto de ver como se trabalha n’um atelier, iria a casa das floristas, das modistas, das costureiras, isso não acabaria; seria para estudar os costumes das diversas classes da sociedade. Deus sabe quanto se vê quando se quer estudar os costumes! Não, siga o meu conselho, não faça romance nenhum! Demais, não creio que seja essa a sua vocação.

—Ah! se eu podesse descobrir ou inventar alguma coisa boa, util, alguma coisa que me cobrisse de gloria e fizesse a minha fortuna.

—Tem todo o direito de procurar isso...

—Que pena que a batata seja conhecida! talvez eu a tivesse descoberto!...

—Sim, mas a batata é perfeitamente conhecida, não quebre pois a cabeça a procurar invental-a.

—Repito, quero occupar-me n’alguma coisa.

—Pois bem! se o quer absolutamente, eu lhe procurarei um emprego.