—A senhora? E então onde?
—N’uma secretaria; vae-se para a repartição não muito cedo, sae-se de lá não muito tarde; á noite está-se livre, isto não dá muito trabalho.
—Ah! isso havia de agradar-me muito! Mas como espera a senhora arranjar-me esse emprego?
—Eu verei, falarei aos meus conhecimentos; parece-me que o caso não é urgente. Espere, Florentina tem um primo, que é chefe d’uma repartição; farei com que ella fale ao primo. Aquella pobre Florentina! como a gente é ingrata! quando se ama muito alguem, quando não se pensa senão n’essa pessoa, esquecem-se todas as outras! Mas o senhor faz-me andar a cabeça á roda, tira-me o juizo!...
—Que mais temos então?
—Temos que hontem á noite, quando recebi a sua carta, acabava Florentina de entrar; vinha offerecer-me o seu camarote na Opera; mas depois de haver lido o seu negregado bilhete em que o senhor me annunciava que não iria lá, tive um ataque de nervos terrivel; aquella pobre Florentina dispensou-me todos os cuidados, mas não sabia o que me havia de dar, mandou a minha creada buscar o remedio que costumo tomar quando tenho d’aquelles ataques; mas a creada não voltava, eu tornei a mim, e sem esperar pelo remedio, disse a Florentina: «Anda commigo, quero ir a casa d’elle; mandei vir uma carruagem, e Florentina teve a complacencia de me acompanhar até á sua porta, queria mesmo ficar á minha espera, sacrificando por mim a Opera e o prazer que esperava ter lá; mas eu não quiz consentir, mandei-a embora. Então! ha de convir que é uma verdadeira amiga, e que tenho muita razão em ter por ella uma affeição sincera...
—Sim, sim, não digo o contrario, ella é-lhe muito affeiçoada, mas tambem é horrivelmente feia!...
—Ah! ahi está o que são os homens!... Que importa que seja feia, se possue todas as qualidades do coração! Mas os senhores não apreciam senão a belleza!
—E as senhoras não descobrem todas as qualidades do coração n’uma mulher, senão quando ella não é bonita. Oh! em o sendo, acham-lhe logo todos os defeitos, mas não falam nunca das suas boas qualidades.