—Prohibo-te que me trates por tu, percebes meu creado?
—E eu prohibo-te que me chames teu creado... Vae-te deitar, borrachão.
—Vae para o teu cubiculo, perro, ámanhã falaremos... não te digo mais nada... teu amo te ensinará!
Depois de haver atirado esta ameaça, que faz encolher os hombros ao porteiro, Rouflard dirige-se, cambaleando, para a escada, apoia-se ao corrimão e lá consegue subir a muito custo. Casimiro tinha ficado em baixo para assistir ao dialogo entre o bebedo e o porteiro; sentia tambem uma certa curiosidade, e desejava saber como é que aquelle homem, tão mal arranjado, que parecia tão miseravel, pudera ter por creado o sr. Chausson; pergunta pois ao porteiro, assim que Rouflard desapparece na escada:
—Este bebedo, que affirma que o senhor esteve ao seu serviço, fala verdade?
—Oh! sim, senhor, não o nego; mas o que o senhor difficilmente acreditará, vendo-o agora tão miseravel, é que, ha vinte e cinco annos, este mesmo individuo era então um homem da moda, o menino querido de todas as mulheres, que não lhe chamavam senão o lindo Rouflard! o encantador Rouflard! e, a dizer a verdade, era então um bonito rapaz, bem feito, airoso de corpo, uma cara amavel, fino... Oh! o maganão sabia dar aos olhos todas as expressões possiveis para seduzir as mulheres, e, palavra! entendia da coisa... era o seu officio?
—O seu officio? O que quer dizer com isso?
—Pois é bem facil de perceber: quero eu dizer na minha, que o lindo Rouflard não se occupava n’outra coisa senão em fazer a côrte ás senhoras, e atirava-se de preferencia ás senhoras ricas. Então recebia d’uma, e depois de outra! mimos d’esta, presentes d’aquella. Quando os fornecedores, os crédores, lhe vinham pedir dinheiro, nunca era elle quem lhes pagava. Eu estava ao facto de tudo, era o seu creado grave, o seu homem de confiança; elle dava-me as intrucções, dizia-me: «Chausson, has de mandar o meu alfaiate a casa de Leonor e o meu sapateiro a casa da Ernestina, ellas pagarão a esses patifes; não quero descer a pagar aos meus crédores; é de muito máu tom! Ah! é verdade, has de ir a casa da sr.ª fulana, ganhei-lhe hontem cem luizes ao écarté; irás pedir-lh’os, que ella dá-t’os immediatamente, já se sabe; demais, as dividas de jogo são sagradas, pagam-se em vinte e quatro horas. Passarás tambem por casa da baroneza ou da condessinha; apostámos nas corridas, ganhei mil escudos a uma, mil francos á outra, receberei tudo isso, tenho precisão de dinheiro!» Eu ia fazer estes recados, e durante muito tempo aquellas senhoras pagaram, pagaram muito bem sem fazerem a menor observação. Então apanhava eu alguma coisa por conta das minhas soldadas, e bebia licores da sr.ª Amphoux pelo resto. Oh! os licores das ilhas! aquillo era o meu fraco! Mas a pouco e pouco as coisas principiaram a não correr tão bem: Rouflard, que bebia como uma esponja, viu dentro de pouco tempo o nariz pôr se-lhe côr de beterraba; isto fez-lhe muito mal no conceito das amantes; em geral as mulheres não gostam dos narizes vermelhos. Quando meu patrão me mandava buscar a quantia d’uma aposta ou o dinheiro perdido ao jogo, aquellas senhoras diziam-me algumas vezes: «Rouflard engana-se, não fui eu que perdi, foi elle;» ou então: «Sinto muito, mas a minha thesouraria está fechada.» Algumas tinham a confiança de me dizer: Apre! estou farta de aturar esse bebedo do Rouflard, não estou para o sustentar por mais tempo.» Quando eu voltava com estas respostas a meu amo, elle ficava furioso, queria desancar-me: depois, para arranjar dinheiro, via-se obrigado a vender uns apoz outros os lindos presentes, ou as joias que havia recebido das suas apaixonadas. Quando não lhe restou mais nada que vender, e quando eu vi que já lhe não mandavam licores das ilhas, disse commigo: «É tempo de largar o commodo!...» Deviam-se-me seis mezes das minhas soldadas, mas era mister não pensar em tal. Deixei pois o lindo Rouflard, que já não tinha nada de bonito nem se vestia como um elegante, e que para salvar-se das difficuldade, procurava arranjar outra amante nos casos de o sustentar, e consegui achar um bom emprego. Pude ajuntar alguma coisa, casei-me e obtive um logar de porteiro n’esta casa, onde estou ha oito annos, e onde morreu minha mulher, o que me não impede de ser muito feliz. Mas faça o senhor idéa de qual não foi a minha surpreza quando, ha perto de nove mezes, vejo chegar aqui um homem vestido como um mendigo, sujo, desfigurado, que me perguntou se eu tinha no predio um cantinho, um sotão, ou mesmo uma agua-furtada para lhe alugar. Eu não o podia crer; todavia, na expressão do rosto fica sempre alguma coisa do que a gente era, e exclamei: «Deus me perdõe! mas é o sr. Rouflard!...» «Foste tu que o disseste! me respondeu elle; sim, sou o outr’ora bonito Rouflard! que o tempo e as desgraças têem um pouco deteriorado. Mas deixa-me encarar-te bem... Ah! agora!... és o Chausson... és o meu creado, pois bem! aluga-me um quarto, e sê hoje o meu porteiro; tenho tomado muito juizo, deito-me todas os dias ás nove horas, e não bebo senão agua, quando não tenho com que comprar vinho.» A vista da miseria de um homem, que eu tinha conhecido tão elegante, tão appetecido e procurado, fez-me pena, e levou-me a dizer-lhe: «Pois sim, dou-lhe um quarto na agua-furtada; mas o que faz o senhor agora, qual é a sua profissão?» Elle coçou a cabeça por algum tempo, depois respondeu-me: «Faço tudo quanto se quer! recados, cosinha; engarrafo vinhos, tosquio cães, educo papagaios; mas o que é sobretudo a minha occupação favorita, é servir de modelo aos pintores.» «Pois bem! tratarei de lhe arranjar que fazer e vou dar-lhe casa lá em cima; mas estará aqui n’um predio socegado, será pois mister portar-se decentemente.» Elle assim o prometteu; mas Deus sabe como tem cumprido a sua palavra! Arranjei que elle fizesse recados a uma inquilina; mas assim que apanha alguns soldos, o borrachão vae bebel-os de vinho e recolhe-se fóra de horas. Avisei-o de que isto não podia durar assim, elle promette-me emendar-se, quando está em jejum, mas veja como se emenda! Esta noite estava fazendo grande barulho á porta; mas se não fosse o senhor, dou-lhe a minha palavra que teria dormido na rua! Decididamente este Rouflard é um extravagante, um mal procedido! Mas os homens que na sua mocidade vivem á custa das mulheres, devem necessariamente acabar assim, porque o seu ganha-pão é a sua cara bonita, e logo que essa boniteza se vae, boas noites! acabou-se tudo! Casimiro não responde nada, e sobe a escada com ar muito pensativo: a historia do lindo Rouflard fez-lhe passar a embriaguez.