VI
A familia Proh
Achava-se a familia Proh reunida na sua sala. Os leitores já conhecem a sr.ª Celeste Proh, de quem lhe fizemos o retrato; seu marido, o sr. Castor Proh, é um antigo professor de historia e de linguas mortas. É um homem alto, magro, amarello, que era feio em moço, e que não se fez bonito em velho; tem o nariz de tal forma chato, de tal forma acachapado, que lhe seria impossivel segurar n’elle uns oculos. Esse senhor tem sempre os ares d’um preceptor prestes a ralhar com o discipulo, conserva constantemente uns modos arrogantes e desagradaveis; sua mulher sustenta nunca o ter visto rir, mas ha pessoas que se divertem por dentro sem que ninguem dê por isso: com o sr. Proh não se dá por similhante coisa.
Uma herança, com que elle não contava, permittiu ao professor descançar e viver dos seus rendimentos; já não quer occupar-se, diz elle, senão da educação dos filhos; mas a filha prefere as artes agradaveis ao estudo da historia, e o Affonsinho deita a lingua de fóra ao pae, quando este lhe fala de linguas mortas; é um verdadeiro diabrete, guloso, curioso, preguiçoso, traquinas, respondão; o pae affirma que o pequeno promette...
A menina Angelina Proh approxima-se dos dezeseis annos; n’esta edade, em não sendo torta nem corcovada, em não tendo o nariz escarrapachado nem os olhos remelosos, uma rapariga é sempre bonita; não é ás vezes senão a belleza do diabo, mas isso faz ainda conquistas, ha homens que não apreciam senão essa belleza. A menina Proh não possuia outra; juntava a isso uma dóse de toleima, que podia ainda passar por ingenuidade, mas que mais tarde não devia deixar a menor duvida sobre a sua qualidade.
N’este momento, a sr.ª Proh está principiando a bordar uma golla, a menina Angelina tenta desenhar olhos e orelhas; o Fonfonsinho recorta uma estampa, e o ex-professor passeia pelo meio da casa, cofiando com a mão a barba e parecendo meditar. De repente pára:
—Affonso, vou-te fazer uma pergunta bem simples.
—De que é que vae fazer...
—Não se diz: de que é que! em primeiro logar essa construcção de phrase é viciosa...