A MENINA LISA
I
Uma creada que sae a recados
—Adriana! Adriana! vejam lá se ella apparece! Adriana! Ah! esta rapariga é insupportavel! Nunca vem quando se precisa d’ella! E depois, não ha com que chamar! aqui porém deve haver uma campaínha... Adriana!...
Uma rapariga gorda, fresca, bem feita, cara vulgar, nariz mais grosso que comprido e cabello loiro-arruivado, apparece emfim á porta d’um quarto que podia passar por um camarim, e no qual estava uma senhora estendida, como que desmaiada, em cima d’uma poltrona, emquanto que outra senhora, mais nova, mas pouco bonita e cujo vestuario elegante não conseguia fazer esquecer a sua fealdade, lhe batia na mão, sempre chamando em altos gritos a creada grave.
—O que é minha senhora? pergunta a menina Adriana, que parece não se ter apressado nada; a senhora está a gritar! grita como se houvesse fogo em casa!...
—O que é, pois não vê? é a sua ama que acaba de perder os sentidos, depois de ter dado um grito muito grande; como ella se agita... como se põe interiçada...
—Ah! sim, eu conheço isso; a senhora está com o seu ataque de nervos, com o seu faniquito; isso dá-lhe quando é contrariada, ou quando tem alguma altercação com o sr. Casimiro.
—Deu-lhe isso ainda agora depois de ter lido uma carta que a menina acaba de lhe trazer. Mas emfim, quando Ambrosina tem o seu ataque de nervos, a menina faz-lhe tomar alguma coisa, penso eu, não a deixa sem soccorro?