O resultado d’estas reflexões é uma resolução, firmissima d’esta vez, de se entregar ao trabalho, e, como a pintura é a unica habilidade que possue e que pode utilizar, promette a si mesmo tornar a pegar nos lapis e nos pinceis e tractar de adquirir, trabalhando, o que ainda lhe falta para se arrojar a fazer um retrato do natural; demais, jura tambem não dizer nada a Ambrosina das suas novas intenções.
O que é indispensavel a um pintor de retratos, é um modelo. Bem sabe Casimiro que a sr.ª Proh estimaria bastante prestar-lhe esse serviço; mas o rapaz, antes de fazer o retrato d’esta senhora, quereria exercitar-se com outro modelo. Lembra-se do que lhe disse o porteiro a respeito de Rouflard, e por isso, logo depois de haver tomado a chicara de café que o Chausson lhe traz todas as manhãs, Casimiro sobe a escada para se dirigir a casa de Rouflard.
A escada era alta. Chegava ao quinto andar, onde não ha senão quartos occupados em grande parte pelas creadas do predio, Casimiro pára a fim de tomar folego, e olha depois em torno de si. Acaba alli a escada; o porteiro porém disse-lhe que o seu antigo amo habitava n’uma agua-furtada, no sexto andar, e elle não vê o minimo rasto de escada.
N’isto ouve-se uma voz de mulher, muito suave, muito juvenil, cantando como se embalasse uma creança. O quarto d’onde sae a voz tem a chave na porta. Casimiro decide-se a entreabrir essa porta para perguntar por onde se sobe ao sexto andar.
Vê uma casa modestamente mobilada, poderia mesmo dizer-se mobilada pobremente; no fundo está um leito bastante confortavel, com uns grandes cortinados de sarja, e quasi ao lado uma caminha, sem cortinas, que apenas se compõe d’um enxergão e d’um colchão muito pobre, de lã; depois ha uma commoda de nogueira, uma meza, algumas cadeiras, um pequeno espelho sobre a chaminé, tudo o que é indispensavel, o strictamente necessario e mais nada; mas isto tudo está arranjado com um cuidado e um aceio que dessimulam em parte a pobreza.
No leito está uma velha deitada; mas ao pé da meza ha uma rapariga sentada a coser. Casimiro fica pasmado á vista d’esta joven, cujo trajo é bem simples, bem modesto, mas cujo semblante agrada logo pela expressão meiga e engraçada dos seus lindos olhos, pelo encanto do seu sorriso, emfim por essa sensação, difficil de analysar, que experimentamos á vista d’uma pessoa que nos é desconhecida, mas que nós voltamos para vêr ainda muito tempo quando o acaso nol-a faz encontrar.
—Perdão, menina, diz Casimiro conservando-se junto da porta que acaba de abrir. Sou indiscreto. Incommodo-a talvez. Mas, se bem que morando n’este predio ha já muitos mezes, conheço pouco as localidás. Procuro um individuo que mora no sexto andar, pelo que me disse o porteiro, mas esse sexto andar não dou com elle... não sei por onde se sobe para lá...
A rapariga sorri-se respondendo:
—Effectivamente, quando se não conhece bem este patamar, é difficil dar com a escada que vae para cima... Mas, olhe, alem ao fundo a parede faz uma quina, é de traz d’essa quina que o senhor achará uma escada muito estreita, que vae ter ao sexto andar, é tão estreita que, se o senhor fosse gordo, não caberia por ella!...
—Provavelmente o senhorio não quer que os inquilinos carreguem a casa demais, responde Casimiro rindo.