—Oh! não ha senão um inquilino... um homem que está muito mal lá em cima!...
—Como parece que está sempre embriagado, pode tomar a agua-furtada por um palacio.
—Acha que sim? Pobre Rouflard! mas elle não está sempre embriagado, felizmente está mais alegre quando se acha em jejum do que quando tem bebido... Ah! perdão, senhor, minha avó está-se voltando na cama... Creio que quer alguma coisa... perdão...
A rapariga faz-lhe uma mesura. Casimiro comprehende que deve retirar-se; agradece outra vez á sua formosa visinha e torna a fechar a porta, dizendo comsigo:
—Como! pois eu tinha uma visinha tão encantadora, e nem suspeitava de tal coisa! Em Paris mora a gente annos n’uma casa e não conhece as pessoas que habitam na mesma escada, não as encontra nunca! É que esta rapariga é deveras encantadora; feições finas e suaves ao mesmo tempo, bonitos olhos, cabello preto como ebano, uma boquinha amavel; que delicioso modelo que isto faria! Vive com a avó; ellas não parecem ser muito ricas... é preciso que me informe. Vamos, procuremos a escada por onde se sobe a casa de Rouflard. Ah! creio que achei... effectivamente é muito estreita! é uma escada de moinho! uma saia de balão não cabia por aqui.
Casimiro, conforme pode, sobe a escada, que não tem corrimão, mas segura-se a gente á parede dos dois lados. Chega a uma especie de patamar que tem tres portas; duas estão abertas de par em par, a do centro está fechada, mas simplesmente com o trinco. É necessariamente alli que deve morar o sujeito que na vespera se tinha deitado na rua. Casimiro levanta o trinco, abre a porta, e fica muito espantado do quadro que se lhe apresenta deante dos olhos; mas d’esta vez não é enlevo o que a sua physionomia exprime.
N’uma agua-furtada que tem doze pés quadrados, e que recebe a luz de uma trapeira construida no tecto, está um homem estendido em cima d’um montão de palha que sustenta uma especie de colchão feito de aparas; um cobertor de algodão, negro de immundicie e esburacado em muitos sitios, é tudo o que tem para se cobrir; ausencia total de lençoes; serve-lhe de travesseiro uma acha redonda, que, para ser menos dura, está coberta de velhos cartazes de espectaculos, que provavelmente foram arrancados das esquinas. O homem que dorme alli não deve nunca despir-se completamente; mas como se está no verão, tirou o paletot e o collete. Tem na cabeça uma velha cassarola de lata sem cabo, a qual lhe serve de barrete de dormir.
Junto d’esta miseravel cama está uma cadeira côxa servindo de meza de cabeceira, em cima da qual se vê uma terrina de porcelana rachada e quebrada em muitos sitios. Aquella terrina, que talvez outr’ora teve dentro saborosas sopas, está reduzida a um emprego bem humilhante! Sic transit gloria mundi! Ha fato espalhado pelo meio do chão. Sobre uma tábua pregada no tabique estão alguns boiões de pomada, um pente, um cangirão, uma garrafa, um cachimbo e um pedacinho de espelho.
Quando o rapaz abre a porta, o sujeito que estava deitado dorme, tem a cara voltada para a parede, e a chegada de Casimiro não parece tel-o accordado; por isso este ultimo pode muito á vontade examinar o sitio em que se acha, e é o que elle faz, porque para um pintor de genero havia alli assumpto d’um quadro original e curioso.