A estas palavras, Rouflard volta-se de todo, senta-se na cama, tira a cassarola que lhe serve de barrete de dormir, esfrega os olhos, e exclama:

—Oh! mas então o caso é differente; isso é que são palavras bem pensadas; espere, eu creio que o estou reconhecendo, é o sr. Casimiro Dernold, mora cá no predio, no terceiro andar...

—Exactamente, ah! o senhor sabe o meu nome!...

—Foi o meu criado que me deu estas informações. Chausson, o nosso porteiro, que foi n’outro tempo meu servo, e que queria hontem á noite deixar-me dormir na rua; porque, agora me lembro muito bem, se não fosse o meu nobre visinho, era a soleira da porta da rua que me serviria de cama! Aquelle tratante do Chausson!...

—Se me dá licença, não foi hontem á noite, foi esta madrugada que tudo isso aconteceu, porque era muito mais de duas horas quando eu vim para casa...

—Pois bem! ainda que fossem quatro! Por ventura as pessoas finas, as pessoas da boa sociedade deitam-se como as gallinhas! Já não tenho com que ir cear á Maison d’Or, é verdade, mas posso sempre passear no boulevard dos Italianos emquanto isso me der prazer! e Chausson é um maroto! vinga-se dos sôcos que lhe dei n’outro tempo. Ahi está o que são os homens! para conhecer os seus defeitos dêem-lhes a riqueza. Creio que foi Larochefoucauld que disse isto, ou alguma coisa equivalente.

—O senhor tem instrucção, sr. Rouflard, como é que não tem achado em que se empregar convenientemente?

—Empregar-me! empregar-me. Ah! o vizinho tem graça! é por não ter querido nunca empregar-me que durmo hoje em cima d’uma pouca de palha! Mas não façamos recriminações! o senhor ficou em me dar com que almoçar, isso cahiria do céu, porque não tenho um soldo, e em compensação tenho grande appetite; a tudo isto accresce que não tenho já credito em parte nenhuma!...

—Mas, se o senhor não quer empregar-se, vae talvez rejeitar a minha proposta?...