Tem boa duvida, disse o Barbadinho, e o que mais admiro além das novidades, que escaparam ao teu engenho, he a brevidade e clareza, com que ensina o que outros naõ poderiam em bem gordos volumes.{68}

Esse moço, disse Antonio Pereira, tem dedo para isso, e ainda o vereis dar á sua patria signaes de bom filho.

Mas ha Professores, replicou Vocio, que dizem ser esse livro muito bom para Mestres; mas que naõ presta para rapazes, pela ordem Filosofica com que foi tecido. E que dizeis a esta? Digo, respondeu Sanches, que he para rapazes, mas para rapazes, que naõ tenham a desfortuna de serem discipulos de similhantes Mestres. Como se Filosofia naõ fosse a recta razaõ, ou se sem ella possa haver bom escriptor, ou bom Mestre?

Eu pasmo, disse o Barbadinho de ver tanto charlataõ; cuidei, com as minhas Cartas, ou com a Introducçaõ Historica, e Critica, tinha curado a loucura dos Pythagoricos: agora vejo, naõ fiz nada. Acaso naõ he para rapazes huma arte, que ensina sem confusaõ a hum principiante, a hum adiantado, a hum Mestre? Huma obra que tem tudo em seu lugar? Em que concorda{69} o principio com o meio, e o meio com o fim?

Esses homens, disse Palemaõ, eram bons para Mestres de papagaios; e fazia huma grande caridade quem os mandasse para o Certaõ, dirigir pretos.

Parece-me, disse Lithocómo, que o autor desta arte errou em lhe chamar Epitome; porque sendo huma obra completa, devia-lhe chamar Flagello do ranço Grammatical do fim do XVIII. seculo: e saõ homens de má cabeça os que desdanham de livro taõ bello.

Acabava Ludolfo Lithocómo taõ douta reflexaõ, quando Joaõ Garcia exclamou: Mil parabens á Naçaõ Hespanhola, que ainda tem filhos, que deram próvas do seu bom gosto na versaõ desta arte, datada em Madrid em 1797.

O discipulo digno de Sanches (continuou elle mesmo) consola a tua paciencia com estes elogios, até que a Ignorancia invejosa naõ morda o teu serviço com seus dentes carunchosos.{70} Quando para aqui vieres serás carregado de louvores; porque a Inveja mordaz em os bons defunctos naõ acha que roer.

Aqui se levantou Joaõ de Barros, exclamando: Quem naõ vê o serviço que eu fiz aos Portuguezes? Eu escrevi os seus illustres feitos, que fizeram pasmar a todos os povos do mundo, e o fructo que em meus dias entrou em meus celeiros, foram taõ descomedidas, como escandalosas censuras; ha muito porém, que depois da minha morte sou chamado o Livio Portuguez, o Mestre do patrio idioma.

A melhor satisfacçaõ, disse o P. Buffier, que o bom escriptor possue em sua vida he a consciencia do louvor, que naõ póde ser affogada nem pelo mais basto oceano de calumnias.