Essa arte, disse Sciopio, com mais justiça merecia ser queimada, do que foi a tua; porque se foste máu Grammatico, ninguem te póde roubar a gloria de teres sido optimo Latino. Os teus versos naõ invejam aos melhores da idade de Augusto: mas de Grammatica foste hum verdugo, como se próva claramente nas Instrucções de 1759. Tambem o teu{77} Mercurio, disse Alvares, naõ foi quem abrio os olhos aos mortaes.
Isto picou tanto a Sciopio, que entrou com a sua mordacidade a altercar taõ descomedidamente, que já a favor de Manoel Alvares se vinha chegando Prisciano, para rebater aquelles dicterios. Entaõ o sabio Presidente em tom magistral, assim fallou: Nada de calúmnias; Manoel Alvares para o tempo em que viveu merece desculpa, seguio aos que lhe precederam, como as ovelhas ao carneiro do chocalho. Mas no fim do chamado seculo das luzes apparecer huma arte como esta, depois de tantos livros excellentes? porém naõ percamos mais o nosso trabalho.
Logo que assim acabou, sem querer ver mais nada olhou carrancudo para aquelles folhetos, e elles como settas me ficaram cravados pelo lado esquerdo, pennas, já se sabe, cor de mechas.
Assim he que me fui aos poucos convertendo em passaro na ilha dos Mortos. Sanches desceu da Cadeira,{78} praticou com os outros relatores. E todos diziam: Viva Crates Mallotes, viva, que campou na escolha que fez. Porém reparei, que Despauterio naõ gostára da galhófa.
Acabados estes comprimentos sahiram todos, e eu feito passaro entre elles, com o meu rabo de rastros, taõ comprido como as linguagens do Novo Methodo. Porém, como naõ perdi a falla, agradeci muito ao Embaixador do Rei Attalo, o devertimento que me deu. E certamente nunca vi opera taõ gostosa; porque sem duvida deixarei todos os gostos do mundo de boa mente, quando se me offereça similhante fortuna: e ainda espero de lá tornar.
Mas como hia dizendo: já estava desconfiado de tornar a Inglaterra; Crates porém, que era mui esperto, e mui politico, conhecendo a minha desconfiança, disse a Sanches: Mostrai a esse hospede as coisas mais notaveis da nossa ilha, para ir o mais breve para sua casa. E tu, amigo Gúliver,{79} desculpa, naõ te poder acompanhar, bem vês, que hum coixo naõ póde andar depressa; porém o respeitavel Teive iré em meu lugar. Ide; eu naõ tardarei muito em ser comvosco; lá nos veremos no mirante de Carlos Magno.{80}
DIALOGO V.
Necessidade da obediencia: elogios da naçaõ Portugueza: utilidades da Agricultura: quanto foi apreciada pelos antigos Portuguezes: castigos dos pedantes na ilha dos Mortos: chegada de Crates Mallotes, para me persuadir a ser Grammatico, &c.
LOgo que Crates Mallotes mandou os seus subditos, nada se demoráram, e eu naõ pude tambem fazer outra despedida, que voltar o rabo para o ar, e o bico para o chaõ, e fazer-me de volta com taõ respeitaveis companheiros. Accusava-vos todavia de sahirem taõ apressados, que me naõ deixaram fazer os devidos comprimentos, ao menos a todos os que haviam fallado no Congresso, de quem tinha eu recebido taõ altas mercês; porque{81} a toda a multidaõ era impossivel.
Comprimentaste a todos, disse Sanches, sem nicas, nem fingimentos dos Politicos mundanos. A obediencia he o eixo da carroça social, por falta deste dever he que ninguem hoje póde viver no mundo. A nossa sociedade compoem-se de sabios que sabem muito bem a sua obrigaçaõ, sem o conselho dos quaes nenhuma póde ser bem dirigida. O nosso velho mandou, governa, obedecemos.