Os sabios! disse Diogo de Teive com hum grande suspiro: A pedantaria!... Mas foi Deos, Gúliver, o que te fez aqui arribar: para remedio de muitos abusos literarios da minha naçaõ, que a pedantaria das outras naõ me importa. Has de achar ahi, dizia elle, has de achar, quem te ajude em este grande serviço. Já Portugal estava com seu rosto coberto de luzes, quando outros póvos estavam sepultados em as mais escuras trevas da ignorancia. Naõ ha no mundo quem tenha melhor legislaçaõ; os nossos Monarcas{82} saõ Senhores no nome, e na Magestade; pais no procedimento: has de achar hum Principe Religioso, Pio, moderado, amigo de Deos, e dos homens; hum Principe, como Tito, que chora o dia em que naõ póde fazer mercê: que está immovel aos conselhos menos piedosos: e que naõ quer tirar o paõ aos servos do Sanctuario, para sustentar o odio, que a pedantaria do tempo tem aos altares.
Na verdade, disse Sanches, nenhuma naçaõ da Europa tem tido melhores Reis, e por isso nunca outros tiveram iguaes vassallos.
Tem boa dúvida, disse Diogo de Teive, os Portuguezes pódem-se chamar melhor filhos, que vassallos dos seus Soberanos, pela fedilidade, e amor com que todo o povo os serve.
Para que estais com isso? replicou Sanches, toda a naçaõ Portugueza se tem distinguido em tudo das mais. Quem tem tido melhores Reis? quem melhores vassallos? Quem melhores letrados? Quem melhores soldados?{83}
E quem, continuou Teive, hum Joaõ das Regras? hum Camões? hum Barros? hum Heitor Pinto, gloria dos Frades de Belém, honra de Portugal?
Entaõ foi desenvolvendo a Historia de todos os Reis de Portugal, os sabios de todas as épocas: acções que pareciam fabulas: guerreiros: proezas até das proprias mulheres. O que tudo vos deixo de contar naõ tanto por se naõ engrossar o volume, como para economia da bolsa de meus apaixonados. Além de que tudo achareis em as Historias daquella naçaõ, ainda que os mortos sabiam o que ellas vos naõ contam.
Já Teive entrava a elogiar muitos dos vivos, sem todavia proferir os nomes de cada hum, até que todo inflammado disse: Será mais facil acabar toda a geraçaõ Portugueza, do que apossar-se della o inimigo.
O que saõ os Portuguezes, disse Sanches, ainda neste tempo dos chás, e dos caffés, em o Rossilhaõ, e em Napoles muito bem se conheceu.{84}
Em quanto eu hia caminhando entre os dois amigos, ouvindo attentamente os elogios dos Portuguezes, que muito me deleitáram os ouvidos: tambem hia desfructando com os olhos a linda prespectiva naõ só de verdes seáras, mas tambem de vistosas arvores, carregadas de bellas fructas, assim como risonhos prados: muitas vinhas; olivaes &c. ví muitos carreiros, almocreves: muitos homens a assar castanhas, outros a pôr hortalica, outros em fim a semear batatas. Estava na verdade ancioso por saber que gente fosse aquella: e ainda mais fiquei, quando vi outros a esfolar mosquitos: e muitissimos á caça de moscas.
Já com difficuldade me podia ter; porem Teive que previo a minha curiosidade, disse-me: Bem sei que estás admirado do que vês: por isso deves saber, que naõ pódem aqui morar senaõ Grammaticos, e Professores de ler, e á medida do seu pedantismo se lhes dá cá occupaçaõ competente: Lavradores somos nós todos: os charlatães{85} tem differentes ministerios, ou almocreves, ou carreiros, &c. os delicados assam castanhas: os negligentes caçam moscas: os que deixam de exprimir os seus pensamentos, porque naõ acham em Cicero palavras para isso, estaõ se cançando a tirar a pelle aos mosquitos. Mas como naõ gostamos de gente ociosa todos nas occasiões vaõ trabalhar em Agricultura.