Se lá no mundo, disse Sanches, mandassem cultivar a terra a homens inhabeis para as letras (naõ deixando em silencio aquelles infinitos estudantes de Mathematica, que nem sabem ler) nem mortificariam a seus Mestres, nem faltaria paõ.

Assim como em meu tempo, disse Teive, em que a Agricultura era taõ estimada: entaõ naõ era preciso vir trigo de fóra, antes havia muito para vender, e quando era cáro naõ passava o alqueire do preço de trinta réis. Oh! Felizes tempos, em que haviam sabios, haviam soldados, havia de comer!

E naõ haviam, disse Sanches, casquilhos{86} sem religiaõ, a medirem as verdades Positivas a compasso: feitos Juristas, e Theologos abstractos.

Estas, e outras coisas diziam, e tinhamos já bastante caminhado; porém nunca me custou taõ pouco o andar. Eu bem podia voar; todavia por decencia hia a pé. Cada vez mais campinas cultivadas hia descobrindo, até que chegámos a hum oiteiro carregado de tójos, e de cardos, por onde pastava huma grande manada de jumentos, guardados por infinitos homens. Estes saõ os Professores de ler, disse Teive, que no mundo só ensináram os meninos a gaguejar, e que foram a causa de nunca poderem avançar ao estudo das sciencias. Naõ foram como os que viste em o congresso, os quaes aproveitáram mais ás suas respectivas nações, do que muitos Rhétoricos, e Filósofos.

A literatura, disse Sanches, he a base das sciencias, e quem poderá ser sabio, sem que saiba ler?

Resolvi-me pois, a fazer minhas{87} perguntas; mas sempre commedidas para naõ me portar, como tolo. Abrí o bico, dizendo: Aonde estaõ aquelles defunctos, que nem foram Grammaticos, nem Professores de ler?

Além daquelle rio caudaloso (respondeu Sanches, apontando com o dedo) ha muitas ilhas, e cada qual tem a sua jerarquia; porém se algum foi Mestre, ou escriptor de Grammatica, ou Professor de primeiras letras, ainda que tambem fosse Rhétorico, Filósofo, Theólogo, ou General, &c. faz-nos entaõ o favor de vir para aqui.

Em quanto Sanches me satisfazia, puxou Teive de huma luneta, e olhando para além do rio, entrou a rir como hum perdido.

Aqui me obrigou a fazer segunda pergunta; porque em similhantes occasiões tem muita desculpa a curiosidade.

Naõ ha coisa mais galante, respondeu, lá está Pythágoras, com a escudélla de Diógenes entre pernas,{88} comendo favas, como o lobo carne de borrego.