Huma boa educaçaõ publica, respondeu Cataõ he o primeiro remedio: depois disto evitar-se o mais{108} que poder ser tropa mercenaria. Assim he, disse Cesar, porque, quando todos os Cidadãos em Roma eram soldados, nem ao imperio faltava defeza, nem o povo morria de fome. Em tempo de guerra corria toda a gente necessaria, no fim cada qual vinha para sua casa. Desta maneira o ser soldado naõ se oppunha entaõ nem a ser estudante, nem lavrador, nem General.

Tambem os soldados Portuguezes antigamente, disse Diogo de Teive, eram lavradores, e homens, que tinham interesse na conservaçaõ de suas familias, e de seus bens: homens capazes, que de suas lavoiras hiam para a guerra, e da guerra para as suas lavoiras. Naquelle ditoso tempo naõ se prendiam homens vadios, e facinorosos, senaõ para o supplicio; e ainda que se admitisse algum destes por ser valoroso, elle se fazia honrado, pelo desempenho dos seus deveres.

Por isso, continuou Cataõ, temos visto por aquelle telescopio, que ninguem{109} até agora entrou em Portugal com maõ armada, que mais hoje, mais amanhã naõ sahisse com a aza a rastros.

Eu estava admirado do que ouvia, e já gostava de ser bom estadista (naõ como os do caffé, aos quaes aborreço de morte, quero dizer as suas loucuras) por isso, estando muito familiarisado com a presença de Carlos Magno, que me tinha havia tanto tempo ao pé de si; com o mais profundo respeito; porque naõ costumo abusar do favor, que se me faz, assim perguntei: Como, Senhor, póde neste tempo, em que tanto se necessita de trópa bem disciplinada, deixar de haver soldadesca paga?

Cataõ logo entrou a rosnar; mas em tom que nada percebi, com tudo, se fordes bom Logico, podeis fazer huma boa conjectura.

Sua Magestade, o Illustre Imperador Carlos Magno respondeu-me com a mesma affabilidade, com que costumam os Monarcas Portuguezes fallar ao seu povo, e aos estrangeiros, o que{110} tudo observei quando estive em Lisboa; e Teive havia confirmado com milhares de provas; o qual era testemunha sem suspeita. O plano, proseguio o heróe famoso, para haver muitos soldados fiéis, e valorosos com bem moderada despeza, he o seguinte: Tem por exemplo huma Potencia 60$000 homens pagos, tenha só 12$000: estes sejam bem escolhidos. Alistem-se agora 200$000: repartam-se em Regimentos: venham da tropa paga officiaes sabios, e honrados para cada regimento. Tenha-se muita attençaõ aos destrictos para se ajuntarem os soldados em os dias desoccupados a fazerem exercicio. Dê-se aos pobres fardamento de tres em tres annos: a todos sem excepçaõ a sua arma. Fóra do exercicio naõ se vistam as fardas, tirando aquellas, que cada qual quizer comprar, &c. Naõ se pague senaõ em guerra, ou actual serviço. Naõ se falte com o premio aos benemeritos. Entaõ siga cada hum o modo de vida que bem lhe parecer. Mas quando este seja incompativel, naõ se deve vexar ninguem.{111} Ora dizei-me deste modo faltará quem defenda a sua Patria?

E seraõ, respondeu Cesar, menos as miserias publicas, e naõ ficaraõ as terras a monte, e naõ haveraõ tantos ociosos, e...

Naõ será preciso, interrompeu Cataõ, prender homens, e assim constrangelos a jurar bandeiras, as quaes por esse motivo lhes haõ de ser sempre odiosas.

Fallando assim Cataõ, e estando Carlos Magno virado algum tanto para elle: aproveitei-me da occasiaõ, e espetei o bico na orelha de Crates Mallotes, que estava á ilharga de Cesar; perguntei-lhe muito baixinho: Com que Bullas está aqui o açoite dos infiéis?

Já te esqueceste (respondeu-me em o mesmo tom) do que te disse Quintiliano lá no congresso, quando se recommendou a Grammatica da lingua materna? Entaõ lembrei-me da Grammatica Tudesca; e ao mesmo tempo da brevidade, ou fraqueza da memoria humana. Mas debalde se fallou taõ baixinho;{112} porque o Imperador tudo ouvio, e disse mui expeditamente: Sim, fui Grammatico, e naõ temos medo aos Filósofos da moda. Tu faze pelo ser, para que algum dia tenhas lugar aqui comnosco.