XI
O Thomaz dos passarinhos
Acabavam de dar dez horas; e ouvia-se ainda o som dos sinos de S. Vicente, o que mostrava que o vento estava da barra a prometter mais chuva.
Em todo o santo dia não descontinuára de cair agua, e ao cerrar da noite, carregou tanto que parecia vir tudo abaixo. Em casa dormiam todos, e na malta vigiava apenas, junto da candeia quasi a apagar-se, o tio Joaquim, que estava fumando embevecido no que quer que era, que parecia preoccupal-o.
Os maltezes dormiam cada um para seu canto, embrulhados em gabões, ou cobertos com as mantas em cima das esteiras. Debaixo da cinza ainda faiscavam alguns restos de vides, na chaminé, e a meio da tarimba ainda se via um baralho em desordem, como a provar que havia pouco descançava d’uma bisca de quatro. As cartas poderiam figurar com bastante rasão no gabinete d’um antiquario, e tinham direito ao asylo de Runa pelas multiplicadas cicatrizes ganhas no combate.
Mas como o jogo era de boa fé, e só para matar tempo, pouco importava, que fossem mais conhecidas ainda pelas costas do que pela frente.