Pela minha parte tinha ficado tambem por ali mais um bocado, e preparava-me para recolher, quando me pareceu ouvir, por entre o ruido da chuva que caía sem cessar, e do vento que não parava, o som da campainha do portão.
—Não ouviu tocar á campainha, tio Joaquim?
Este levantou a cabeça e como despertando, respondeu-me:
—A estas horas, não póde ser, foi engano seu, já estão todos recolhidos.
N’isto o cão do pateo começou a ladrar.
—Tocaram, tocaram, repeti eu, e tanto que lá está o Alfageme a dar signal. Ora escute, lá tornam.
E effectivamente um segundo toque se fez ouvir, mas tão brando, tanto a medo, que mal se ouvia, apesar de escutarmos ambos com toda a attenção.
—É toque de desgraçado, de quem receia incommodar; pobre homem, com este tempo! Eu vou vêr, disse-me o tio Joaquim levantando-se e pondo o chapeu. D’ahi a pouco senti-o chamar o cão, que se enfurecia a ladrar cada vez com mais força, em seguida abrir o portão, e logo depois entrar na casa da malta já acompanhado.
O recem vindo entrou timido e denunciando o extremo acanhamento da pobreza envergonhada.
Caía-lhe a agua a fio do chapeu, que trazia derrubado para a cara, e ensopava-lhe um capote esfrangalhado, que bem a custo lhe resguardava o corpo. Ficou á porta mesmo, e como mal se atrevendo a proseguir.