Agueda era feia e grosseira de feições como grande parte das raparigas do campo. Muito trigueira e mais queimada ainda, crivada de bexigas, os beiços grossos, o nariz achatado e largo, as orelhas grandes e mais repuchadas ainda por umas enormes arrecadas de ouro, o cabello crestado e carapinho. Tinha os olhos pretos rasgados e ramudos como quasi todas as saloias e era nova.
Como de uso, trazia côres, que mais destoavam com o semblante. Umas roupinhas encarnadas, e uma saia de chita côr de rosa sobre outra de baeta verde salsa. Explicado estava pois o furor da vacca.
Entretanto era por extremo vaidosa, e tão presumida como o são todas as moças feias; mal tornou a si do susto começou correndo-lhe a mão, a alisar o cabello, e quando lhe pareceu ter-se bem composto, proseguiu na encetada conversação.
—Quem havia de dizer que a vacca da Angelica!... Parecia tão socegada!...
—Não admira, tornou-lhe Thomaz, que já se deitára debaixo da sua arvore e parecia distrahido a olhar para o ceu.
—Não admira, porquê?
—Ora, tu appareceste-lhe assim, tão assanhada!
—Tão assanhada!
—Sim, pareces-me uma papoila vermelha, já com as sementes pretas, no meio d’um campo de verde.
—Sempre tens lembranças!