E havia uma tal ingenuidade, o que quer que era de boa e pura simpleza nas suas historias, nas suas exclamações, na explicação que lhe dava dos enlaces dos animaes e dos amores das plantas, que a pobre rapariga parecia levada a mundos novos, e quasi estranhava tudo que não era o fallar e a companhia de Thomaz.
Um dia, eram passados tres mezes, depois do primeiro colloquio, voltou-se elle repentinamente para a sua companheira depois d’alguns momentos de abstracção, e disse-lhe:
—És feia Agueda, muito feia.
—Se o sentes, para que m’o havias de dizer? tornou lhe tristemente a rapariga.
—Porque digo sempre o que sinto. Mas o teu coração é formoso e a tua alma é boa.
—Obrigado, Thomaz.
—Não me agradeças, porque fallo verdade. O teu coração é bom, e a belleza do corpo acaba, emquanto a formosura da alma se conserva. Eu gosto de ti, Agueda.
—Tambem eu gosto de ti, e por isso sempre me pareceste formoso.
Era uma especie de recriminação, que Thomaz não percebeu.
—Eu queria casar comtigo.