—Duvidar! queres talvez que te agradeça, que te bemdiga, porque ás primeiras palavras de teu pae, me atiras a monte, como herva ruim, ou foice partida. Eu é que tenho a culpa, não é assim?
Dize, anda, eu é que tenho a culpa: e tenho, porque te queria mais do que á propria vida, porque te queria, como homem nenhum poderia querer a uma mulher. Anda, não duvides, accusa-me, Rosa, que bem o mereço. E entretanto Deus sabe, que thesouros de amor, se guardavam cá dentro, Deus sabe quanto eu te estremecia!... Pensei que não houvesse forças no mundo que nos separassem, pensei que nem Deus mesmo tivesse poder para tanto! Enganei-me. Foi bem feito.—Se tu és mulher!... E não arrebentar eu, quando me assomou este amor!—Não ter havido um raio que me partisse!... Casa, casa e sê feliz!
Depois, entre soluços, soltou um adeus, e deitou a correr como doido, fugindo à tentação, que lhe affogueava o pensamento.
Rosa ficou prostrada sobre o marco, até que a agua innundando lhe o rosto, a reanimou por um pouco; seguiu, mais por instincto do que por vontade, para casa e deitou-se, já com os primeiros symptomas de uma febre cerebral agudissima.
Feliciano não soube nunca a rasão da doença de sua filha, Januario acompanhou o compadre n’algumas noites perdidas, e Rosa costumou-se a vêl-o e a agradecer-lhe o cuidado e a affeição, que lhe mostrára. Affeição rude, brutal mesmo; mas por isso tanto mais para apreciar uma ou outra delicadeza, que surdia como enfesadinho rebento de tronco cascudo e rugoso.
Convalescente ainda, apparecera Rosa no bailarico, e ali encontrára Estevam, que durante a doença não se affastou nunca das proximidades da casa, empregando astucias incriveis, reccorrendo a subtilezas quasi inacreditaveis, para a vêr sem que o visse, ou para se informar, ao menos, do estado em que se achava.
Os nossos leitores já assistiram ao dialogo que travaram. No dia seguinte Estevam, partia a bordo da—Joaquina Primeira—para a Costa d’Africa, e um mez depois Rosa casava com Januario, quasi sem perceber, que mudava d’estado.
III
Tinha decorrido um anno depois do encontro de Rosa com Estevam, que ultimamente relatámos. Não haviam chegado noticias d’este ultimo e corria pela terra, que morrera das febres d’Africa. Rosa nunca mais proferira o nome do seu antigo apaixonado; mas quem lhe devassasse o intimo d’alma reconheceria, que a imagem querida não lhe saira nunca do pensamento.