Apparecia-lhe nas horas suaves de melancholia, quando espraiava a vista pelos descampados, descançando depois os olhos no filhinho de mez, que se lhe pendurava do seio.
Depois que desapparecera, Estevam convertera-se para a imaginação apaixonada de Rosa n’uma triste visão, que saudosamente lhe sorria d’essas regiões encantadas, que a phantasia povôa de arrobados devaneios.
Aquelle amor depurára-se pela ausencia, e a noiva entregando-se ao marido, cumprindo religiosamente os seus deveres de mãe e de esposa, persuadia-se que lhe seria licito, ao menos dispôr da sua alma.
E, ainda que o não quizesse, esta pertencia a Estevam. A posse que lhe déra, que elle conquistára á força de disvelos, de sollicitude e de amor, era inalienavel, ganhára-a com o sacrificio da sua vida, com o holocausto da sua existencia, nos altares da dedicação. E que importava a Januario, este innocente roubo! Não poderia encontrar mulher que mais cuidasse d’elle, que mais o cercasse de carinhos, que mais se sacrificasse ao seu bem estar.
Nenhuma seria capaz de dar melhor ordem á vida, de cuidar mais no arranjo da casa, de providenciar mais para que coisa alguma faltasse a seu marido. Delicadezas de sentimento, não eram para Januario; nem as comprehendia, nem se dava de semelhante coisa. O mundo, para elle, era uma serie de commodos, e o conforto da casa e da familia a felicidade suprema.
Não pensára nunca em fallar ao coração de sua mulher. E andára acertadamente não procurando desferir instrumento, que atormentado por aquellas mãos rudes apenas poderia soltar gemidos; mas harmonias nunca. Onde acabava a materialidade finalisava o mundo. Idealismos, se alguem lhe fallára em tal coisa, poderia contar com descompostura certa, em paga de semelhante atrevimento.
Tinha com que viver e vivia do que tinha.
O grangeio das fazendas, o amanho das terras, os cuidados da agricultura, preoccupavam-lhe o dia. Á noite esperava-o uma boa ceia, uma cama de pau santo lusidia com os lençóes alvos de neve a estenderem-lhe os braços, a esposa a sorrir-lhe no limiar, sorriso encoberto por um permanente veu de tristeza, mas isso não percebia elle, e o filho a dormir tranquillo no berço com o bracinho curvado sob a cabeça, a boquinha rosada mussitando sonhos de convivencia com os anjos, seus irmãos.
E o aceio a afformosear tudo, e a tranquillidade a alegrar o interior da casa, e a arca recheada ao canto, a prometter dilatados dias de descanço e de fartura.
E até para lhe alimentar as rabujices da idade, (Januario já rastejava pelos cincoenta), o birrento do sogro, que sempre tinha que lhe tornar, e que contradizer em todos os trabalhos, que emprehendia seu genro.