Que mais quereria pois.

Rosa costumára-se tambem a esta vida de insensibilidade e sacrificio. A ideia de que fizera a felicidade de seu pae, e de seu esposo, consolára-a da grande perda, que sentira e vivia transfundindo em seu filho todas as delicadezas de sentimento e de amor, de que precisava para poder viver.

Transformação, que facilmente comprehendem os que sentirem devéras, o amor de Estevam depurára-se-lhe na alma e fizera-se amor de mãe. Quantas vezes lhe parecia emballando seu filho, que estreitava nos braços a Estevam!... Então conchegava a creança mais a si; apertava-a tremulamente: e duas lagrimas de saudade, ou talvez de amor, deslisavam-lhe pelas faces.

O filhinho, disperto com aquelle enlace, abria os olhos, e parecia fital-os na mãe, como traduzindo uma admirada reprehensão: ao menos assim o julgava ella, que se sentia desfallecer e se accusava então d’aquella innocente infidelidade aos seus deveres de esposa. Beijava ferverosamente o seu pequeno censor, como para o abrandar, e com aquella imagem afugentar a outra que tinha presente sempre.

N’estes rapidos e quasi inapreciaveis movimentos se denunciava apenas a intensidade d’aquella violenta e concentrada paixão. Como nas pavorosas tormentas submarinas a placida superficie das aguas só n’um ligeiro tremer poderia denotar a força das horrendas luctas, que se travavam nas remotas profundezas.

Uma tarde ficára absorta no seu scismar contemplativo toda embevecida n’aquellas divagações, que tantas vezes a alheavam do mundo em que vivia. Os olhos parados e fitos pareciam procurar nos affastados horisontes aquelle indefinido ponto em que os espaços se perdem de vista e que a phantasia enriquece com suas extranhas creações. Dir-se-ia a estatua do desalento poisada sobre a pedra da sepultura a remirar-se nos ceus, na sua almejada patria.

A imagem de Estevam adejára-lhe na mente, e enlevada n’aquella paixão, que a não deixava, deixou approximar-se a noite sem perceber que as trévas baixavam encobrindo os campos.

Já a lua desenhava com os seus pallidos clarões figuras estravagantes, que pareciam dançar por entre o arvoredo á feição do vento, e Rosa ainda estava no mesmo logar e na mesma posição.

De repente soltou um grito e estendeu diante de si convulsivamente os braços, como se pretendesse affastar um phantasma atterrador. A imagem, que evocára parecêra tomar corpo, e n’um vulto que se escondia por entre as arvores cuidou reconhecer Estevam.

Effectivamente apenas soltára aquelle grito o vulto correu para ella, era Estevam.