—Pois não tens as mesmas idéas que tinhas ha seis mezes, já te não lembras do hospital?

—Tenho-me agora lembrado mais ainda, mas é do hospital dos doidos, e lá não tardaria eu se continuasse n’aquelle inferno. Guarde-a que lhe não invejo o vagar.

O sr. Manoel Fernandes viu o pobre André tão amofinado, que não quiz abusar. No dia seguinte este começava no trabalho antigo e pela primeira vez, havia tanto tempo, dormia de um somno desde o deitar até ao amanhecer.

Magdalena reagiu, e queixou-se ao principio, depois costumou-se outra vez: e se se lembrava com saudades dos seus antigos explendores, não tinha muito tempo para ter pena, porque o trabalho da casa preoccupava-lhe a attenção.

Os pequenos esses só tiveram desgosto com a mudança. Uma enchurrada havia-lhes desmanchado o seu castellinho de terra.

De novo reinou n’aquella casa o socego antigo: a alegria, que parecia ter fugido espavorida das grandezas do rendeiro da Chibanta, tornou a sorrir no pobre albergue do modesto trabalhador.

O sr. Manoel Fernandes entretanto foi ajudando André, que, com o andar dos tempos, conseguiu comprar um quintalejo que, se não era tão grande como a Chibanta, correspondia ao menos ao seu saber e não lhe dava grande cuidado.

Mas tinha-lhe aproveitado a licção, e quando lhe fallavam nos haveres dos outros dizia sempre:

—Eu bem sei o que isso é; ninguem está contente com o que Deus lhe deu. Por isso diz o rifão: a gallinha da minha visinha...