Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso cahira-lhe o roupão. Sorrindo-se, envergou umas saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se novamente ao espelho. Com um pincel, mergulhado em carmim, deu côr ao rosto, naturalmente desmaiado. Apertado o espartilho e collocada a tournure enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia e pediu alfinetes. Pregou o vestido, pregou o cabello, pregou as saias, pregou-se a si e sahiu do boudoir.

--Ora esta! e não me ia agora esquecendo o crême imperatrice--monologava ella, voltando á saleta.

Defronte do espelho, recuando dois passos e fazendo tregeitos para um o outro lado, empoeirou-se gravemente.

Extrahiu do gavetão um lenço de cambraia; destapou um vidrito de jockey-club, perfumou-se e entrou na sala do baile.

O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se. Dedilhou, ao acaso, uma escala e aborreceu-se.

Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos do cabello e abriu a janella.

Uma brisa tépida soprava apenas. O sol ia declinando no horisonte. Nas ruas mexiam-se as multidões apressadamente. Alguns cavalheiros de chapéu na mão limpavam o suor da testa. As damas, mesmo á janella, agitavam os leques phreneticamente. Os freguezes entravam nos botequins, e pediam sorvetes.

Estava proxima a hora do passeio, a hora de luar, a hora de amor.

Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou a janella. Chegára-lhe finalmente a vontade de jantar.

Caminhou lentamente, deixando após de si um rumor surdo, e mui semelhante ao remexer de folhas, agitadas pelo vento.