Pouco tempo, porém, durou similhante situação. Ao cabo de alguns mezes a policia lançára as suas vistas para os lados de Alcantara. Isto soube-se, e chegou aos ouvidos de Julio, a este tempo já viciado por toda a casta de corrupção.

Com nova tão para desesperar, quasi endoideceu o moço-operario. Uma noite mesmo, encontrando um policia civil, e tomando-lhe da mão direita, disse:

--Olé--sabe quem eu sou? Ah! não sabe? pois bem: fique sabendo...

E fugindo, estendeu-o no chão com uma fortissima bofetada.

Assim se passaram alguns dias, de louca anciedade. Por tradicção conhecia Julio um velho aldeão, de quem a mãe repetidas vezes lhe fallára. Uma noite, deixando o casebre de Alcantara, demandou a provincia, onde lhe sorriram os primeiros raios de felicidade.

Mas Julio já não era o mesmo homem. O desanimo ganhara-o por momentos. É condão da miseria transformar o homem physica e moralmente num monstro de paixões.

A barba crescera-lhe. O corpo definhava-se-lhe a olhos vistos. No coração principiavam os espinhos a crescer e a vegetar. Emfim, aos pés do operario um abysmo, um immenso abysmo se abria.

E ai do homem, que um momento escorregar no precipicio; porque para esse não haverá salvação possivel.

A mulher, que uma vez peccou, habilita-se a ser uma eterna peccadora. O homem que um dia se prostituiu, fica para sempre prostituido.

Nem sempre, porém, nos abandonam os anjos do céu.